No que se refere aos direitos das mulheres, a persistência da desigualdade, mesmo quando a lei consagra a plena igualdade, é, no que diz respeito às sociedades ocidentais, um mal do sistema democrático, ou melhor, um mal do conceito de democracia por que nos regemos. A chamada «democracia representativa», não serve para governar cidadãos, mas para gerir eleitores. As preocupações com a paridade não têm a ver com um genuíno interesse pela igualdade de géneros, mas com o impacto que tem sobre as eleitoras. Pretendem os partidos evitar que as mulheres entendam as eleições como coisa que não lhes diz respeito.
E, no entanto, as mulheres bem sabem que não precisam de empurrões e de manobras publicitárias – bem as vimos e ouvimos nas assembleias populares do pós 25 de Abril, fazendo intervenções calorosas e assumindo posições de coragem – talvez com discursos menos empolados do que o dos homens, mais voltados para as questões práticas, Seja como for, as mulheres não precisam de favores, nem de leiss partidárias que imponham a paridade. O absentismo político tem a ver com o défice democrático que afecta as mulheres no dia a dia.
E nas sociedades como a nossa, supostamente democráticas e onde teoricamente as mulheres ascenderam à igualdade plena, a prevalência de desigualdades gritantes, de violência, de injustiça, é fruto de atavismos que contaminam comportamentos e que só bem orientadas campanhas de educação, poderiam corrigir. E essa educação para a igualdade tinha de se estender ao Ensino e atingir todos. Nem só os homens necessitam dessa orientação, pois o sexismo, o machismo, parte muitas vezes de mulheres. É uma doença social.
No bloco final desta edição, a que chamámos «Grandes questões», vamos abordar algumas das questões centrais que impedem que a igualdade, um dos pilares da grande revolução de 1789, se concretize. A violência doméstica, os estupros e violações, continuam a ser notícia e a produzir vítimas mortais. Noutras sociedades, como sendo a islâmica, a discriminação está institucionalizada. Dir-se-á que é outra cultura. Mas então não se está sempre a dizer que vivemos num mundo global ?– a globalidade apenas serve para o comércio ?– se exportamos ciência e tecnologia, os comportamentos que violam a Declaração Universal dos Direitos do Homem deviam ser passíveis de represálias económicas. Mas a superpotência que policia o planeta e que pode declarar uma guerra e destruir um país, invocando falsos motivos, fecha os olhos a crimes contra a Humanidade.Países membo da Organização das Nações Unidas e que pretendam ter um relacionamento normal com a comunidade internacional teriam de garantir às suas mulheres o Direito à vida, à liberdade, à igualdade, à liberdade de pensamento, o acesso à informação e à educação, o direito à privacidade, à saúde; o direito a planear a sua família e à decisão de ter ou não filhos . ..
Esta é a realidade que temos e contra a qual lutamos, usando como arma a palavra.
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Ilustração: Reprodução de quadro de Dorindo Carvalho

PTIMO !Maria