“Quanto mais me bates MENOS gosto de ti” – por Joana Domingues

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A compreensão da violência no casal passa por uma análise dos interesses comuns e opostos, bem como os modos de interação que incluem a brutalidade física e verbal produzida na conjugalidade.

A violência que ocorre nas mais variadas configurações de casais, assume uma relação de domínio e força, sendo que mulheres ou homens podem adotar o papel de agressor ou agredido. A violência doméstica em Portugal continua a vitimizar dezenas de milhares de mulheres, chegando a causa de morte de algumas vítimas.

Na violência doméstica contra a mulher é importante termos em conta aspetos relacionados com o género sem por isso levar a um heterocentrismo da violência conjugal, mas sim uma abordagem da problemática. A adequação cultural do papel social de homens e mulheres leva a criação de desigualdades, e por isso a visão do homem como forte, à naturalização da própria violência e à consequente invisibilidade da agressão da mulher.

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A APAV (associação portuguesa de apoio à vítima) classifica a violência doméstica  como um sistema circular- ciclo da violência doméstica composto por 3 fases:

  • Aumento da tensão – A vítima sente que o perigo esta eminente devido às  ameaças e tensões desenvolvidas no dia-a-dia.
  • Ataque violento – O agressor maltrata a vítima com agressões físicas e psicológicas, que tendem a intensificar-se.
  • Lua-de-mel – O agressor envolve a vítima de carinhos e promessas, entre elas a promessa de mudar e a de que nunca mais voltará a exercer violência. 

Segundo Marie-France Hirigoyen* depois da liberalização da mulher a situação melhorou, mas existe uma fragilização por parte do homem em relação a perda de poder; paralelo a este cenário os rapazes já não imitam o pai, o modelo do pai já não constitui um referente. Atualmente a educação dos jovens passa pelos amigos, pela internet, acabam por saber mais que o próprio progenitor, e são os homens que vivem essa perda, os que muitas vezes recorrem a processos perversos, incluindo violentos, onde a psiquiatra inclui a crise financeira como variável agravante.

Existem algumas características que podem levar à indicação de um autor de violência doméstica, sendo um primeiro alerta para a condição, não querendo por isso dizer que vão cometer atos violentos, contudo é preciso manter os olhos bem abertos se existe: Manipulação- uma distorção da realidade para quem esta de fora da situação, o homem manipulador tem uma conversa hábil, fazendo algumas promessas de acordo com o desejo da mulher. Controlo- O caráter controlador do homem aumenta quando a esposa se revela mais independente, faz atividades sozinha, pretende trabalhar, etc. O homem violento é egocêntrico, espera ser o centro das atenções em casa, tende a ignorar a vontade ou desejo dos outros, associado ao egocentrismo existe uma atitude de superioridade em que o homem tende a considerar a esposa um objeto sexual ou alguém que deve apenas servi-lo, revelando muitas vezes um sentimento de posse exagerado, achando que a mulher é sua propriedade. O homem violento não se acha responsável dos atos que comete, transfere essas responsabilidades a fatores externos como o stress, trabalho ou mesmo a própria esposa (inversão da culpa), com a promessa de que nunca mais vai voltar a repetir a situação de agressão.

Na psicologia da relação objetal o homem violento tem uma personalidade cosiderada patológica: transtorno de personalidade anti-social “Bordeline” e Narcisista. Existe um egocentrismo patológico, assim sendo o ego do carater narcísico, dispõe de uma grande quantidade de agressividade manifestada numa aptidão para a ação, o resultado da agressividade subjacente passa pelo domínio do objeto, a posse e proximidade em relação ao mesmo, funcionando como algo tranquilizador para o agressor. Para a maioria dos autores existe uma ligação entre o agressor e as fixações da infância (espancamento ou abuso na infância, separação dos pais, entrega a uma ama ou internato por exemplo). O homem violento é geralmente reincidente, o movimento inicial, dá origem à compulsão da repetição, narcisicamente a repetição das vivências traduzem-se num domínio da situação, ao expulsar o elemento pulsional culpável do consciente.

A violência doméstica ainda que muitas vezes ignorada e mantida no segredo da vida privada não deixa de ser um problema social, além de um problema intrínseco do individuo. Contudo são razões de ordem psicológica, mental e emocional que vêm antes do social.

Existem cada vez mais mecanismos de apoio à vítima de violência doméstica, a importância dada ao problema intensificou-se desde 2007, ano em que o agressor passou a ser penalizado criminalmente. O artigo 152º do Código Penal (lei nº59/2007)

“Quem infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações de liberdade e ofensas sexuais ao cônjuge ou ex-cônjuge, ou a pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem mantenha ou tenha mantido uma relação é punido com pena de prisão de um a cinco anos”.         

Atualmente, ainda que existindo um número significativo de leis sobre este tema, não se tem obtido o resultado mais desejado, dado que os crimes continuam a aumentar significativamente. O objetivo deste artigo passa por compreender a problemática e refletir sobre causas e efeitos, já que o fenómeno continua a ser encarado com particular negligência. Deixar que o problema fique fechado entre quatro paredes não é solução!

Mais violência não:

http://apav.pt/vd/

 Bibliografia:

BERGERET, Jean (1996) La personnalité normale et pathologique, Dunod, Paris.

FONTOURA, F., RAMOS,M. (2008) A violência no casal: uma análise a partir do grupo socioterapêutico com homens encaminhados pela justiça. ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social)

Código Penal – lei nº59/2007, de 4Set.

 *Marie-France Hirigoyen- psiquiatra e psicanalista francesa especializada na terapia do assédio moral e assédio psicológico.

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