O “CHÁ DO BEBÉ” EM BELÉM DO PARÁ por clara castilho

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Numa pesquisa sobre temas relacionados com a gravidez na adolescência encontrei um artigo do  Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, de autoria de Ana Lídia Pantoja, com o título “Ser alguém na vida”: uma análise sócio-antropológica da gravidez/maternidade na adolescência, em Belém do Pará, Brasil”

Quero dele retirar a informação de que existe o hábito de nas escolas que as adolescentes que engravidam frequentam se organizar um “chá do bebé”. Conhecia o termo “chá de panela”, referindo-se a uma sessão entre mulheres, em que se ofertavam artigos relacionados com uma criança que em breve virá ao mundo.

Contradizendo outros estudos, a autora defende que “ o estudo aponta que o mesmo não implica, para as meninas, a ruptura ou abandono de projectos de vida. Ao contrário, a gravidez/maternidade é valorizada por traduzir tanto mudanças de status social para as mesmas, quanto a afirmação de projectos de mobilidade social no futuro, justificando assim, a continuidade dos estudos diante das dificuldades que a situação impõe.” De facto, não se pode extrapolar as conclusões de um estudo numa determinada situação histórica, social e geográfica para outras situações.

gravidez

 

A autora assistiu a um “chá de bebé” que se insere no conjunto de pequenos eventos comemorativos que são organizados por alunos e professores no espaço da escola. Aqui não se trata tanto de ofertas, mas de inclusão e aceitação da nova situação.

Nele se assiste à convivência com a homenageada com as outras meninas, fascinadas ao tocar sua barriga, tentando adivinhar, pelo formato da mesma, o sexo do bebé, de acordo com os ensinamentos de suas mães e avós. No meio das brincadeiras, meninas maiores pegavam ao colo as menores, imitando gestos maternos que apontam a enorme importância que a gravidez/maternidade adquire no universo da escola.

Este apoio começa em casa, com a sua própria mãe. E com o namorado que assumiu a paternidade mas com quem não se vai “amigar”.

Constata-se que nesta escola não se verifica abandono escolar como consequência da gravidez das alunas, como tem sido visto noutros locais. Por vezes há repetências, o que não será de estranhar. As jovens têm projectos profissionais, pensados em termos de mobilidade social futura, sendo a continuidade dos estudos justificada pelo desejo de entrar na faculdade para obter uma profissão e uma inserção no mercado de trabalho em condições mais favoráveis.

Inseridas em contextos de apoio, as jovens mães podem encarar essa nova etapa das suas vidas com menos ansiedade, conferindo-lhes o sentido de responsabilidade que têm de ter perante um novo ser que vem a caminho.

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