
Aos alferes Michaud e Mercwell, do Exército
Francês, camaradas queridos.
I
Mestre Carril, natural de Tola, concelho de Penela, meu aio e impedido, abre devagar a porta do meu abrigo e entra com um braçado de flores. Dentro em pouco, distribuídas pelas cápsulas de granada de 7,5 que me servem de jarras, há naquela caverna de troglodita uma grande rajada de luz. Sobre os meus retratos queridos abre-se a umbrela protectora do carinho da terra de França; e mais um sorriso me acompanha, um sorriso triste que teve as suas raízes numa terra abundada de mortos que morreram bem.
As flores de trincheira são irmãs das flores de cemitério. Dizem o mesmo protesto da Vida contra a Morte, clamam como elas que a Terra não morre e dará amanhã aos que vierem as mesmas bênçãos que dava ontem aos que se foram. A Terra imortal dá-nos a maior lição de humildade. Todos quantos somos, por maiores e melhores que a nossa vaidade nos faça supor que podemos ser, mirando a grande mortalha florida que cobre tantos mortos, temos de pensar fatalmente na nossa pequenez, de cismar que, se uma bala ou um estilhaço nos matar, a Vida não parará por isso e não deixarão de romper pelos campos fora os cânticos eternos: pequenas flores frágeis e delicadas que um sopro desfaz, fartos campos de pão que cada ano se renovam, árvores a cuja sombra as gerações sucessivas se sentam.
Nunca contra a Terra um inimigo maior se levantou do que esta guerra. Impiedosamente lhe diz, em desafio: – «Sobre ti desabarão os meus cataclismos. Rasgar-te-ei até às entranhas com as minhas máquinas infernais. Destroçar-te-ei, far-te-ei em pedaços. Derrubarei as cepas que alimentaste, espalharei aos quatro ventos a tua superfície e os meus engenhos mais potentes irão fundo revolver a tua alma. Mudarei o teu aspecto. Aqueles que te queriam não te reconhecerão, mutilada, desfeada, transformada…» E faz o que promete. Desencadeiam-se contra a Terra os horrores da sua terrível inimiga. Voa em estilhaços uma linda aldeia, desvia-se um curso de água, desaparece uma estrada, os caminhos confundem-se, a varíola das crateras e dos funis de granada estende-se sem piedade… Chega a Primavera, um dia de sol, e a Terra, que poderíamos supor morta, parece estirar-se como uma formosa que acorda, e ali, na cova profunda de um Minenwerfer, uma florinha azul aparece que mestre Carril irá de rastos buscar para a pôr, como um sorriso, sobre a minha mesa.
*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
