Transcrevemos há dias atrás uma citação lapidar de Miguel Torga no seu Diário IX, datado de Chaves, 17 de Setembro de 1961: – «o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão». E Torga conclui «Somos socialmente uma colectividade pacífica de revoltados». As manifestações são uma forma ritual de protesto. São de invenção relativamente recente, não as encontramos antes do século XIX e, nesta forma que hoje assumem – disciplinada, com palavras de ordem gritadas ritmicamente, com cartazes onde são repetidas, julgamos ser coisa de invenção ianque ou, pelo menos, moda que “pegou” nos States e, como muitas outras coisas, o mundo adoptou.
São significativas? De algum modo, são significativas, pois demonstram oposição organizada ao status quo. E decisivas? De maneira nenhuma. Não nos ocorre qualquer manifestação que tenha sido decisiva. No pós-25 de Abril, as cidades portuguesas foram atravessadas numerosas vezes por gigantescas manifes que nos davam a ilusão de que o Poder Popular era esmagador… Os partidos da esquerda extra-parlamentar lutavam entre si pela liderança desse poder. Mas as eleições presidenciais de 1976 demonstraram que apenas 17% do eleitorado apoiava esse modelo de democracia participada – em 1975, em vésperas do Verão quente, nas eleições para o Parlamento, os partidos que hoje definimos como neo-liberais obtiveram uma maioria de enorme expressão.
400 autocarros atravessando a Ponte 25 de Abril demonstram o descontentamento generalizado? Sim, demonstram. Mas, este executivo já demonstrou, sem ser por manifestações, a sua total indiferença perante o descontentamento – constituído por gente formada no credo ultra-liberal, gente que considera a corrupção coisa normal e que se rege por objectivos que desprezam os valores da democracia, gente que chama democracia a esta forma de poder oligárquico que se tem vindo a consolidar, esta gente desprezível, um bando de imbecis desonestos, esta gente, não cai nem com 400 autocarros, nem com 4 mil… Só cai quando abanarmos a árvore em cujos galhos se anichou a sua tribo de primatas egoístas. Mas, Torga tinha razão, somos uma colectividade pacífica de revoltados. Assim, não vamos lá.

Postei no meu face parte do texto -obrigada
Maria