E, de repente, a Síria deixou de ser tema de abertura e de primeira página dos grandes media, peças fundamentais desta sociedade de consumo, da economia de mercado. Era caixa, era prime time, quando estava iminente a agressão das grandes potências ocidentais que já tinham a máquina sobre rodas. Deixou de o ser quando a Rússia trouxe à evidência que as grandes potências se preparavam para serem o apoio aéreo à manobra terrestre da Al Qaeda, que as armas químicas estavam a ser uma ratoeira com todos os contornos da que envolvera as “insofismavelmente comprovadas” armas nucleares do Iraque de Sadam Hussein. Barack Obama, que parecia estar a contra-gosto na armadilha que os falcões e o lobby judaico lhe estavam a preparar, agarrou-se à boia de salvação que Putin lhe lançou. E François Holland, que em bicos de pés vinha engrossando a voz, regressou à sua pequenez. Uma solução negocial iniciou o seu percurso e os media desinteressaram-se. Os media comerciais só se sentem irrecusavelmente atraídos quando há imagens de sangue e cheiro a pólvora.
Ao contrário o Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa deste mês, cuja lógica não é a da imprensa comercial, especulativa e sensacionalista, traz um interessante dossier sobre a Síria, de grande atualidade e qualificada colaboração. Destaco o artigo “Reviravoltas em Washington” do conceituado analista e especialista nos conflitos internacionais Michael Klare, que salienta a viragem em curso.
A Síria, por si só, nunca foi o centro nevrálgico no quadro polemológico do Médio Oriente ou do Mediterrâneo Oriental. Já aqui referi – GDH de 30 de Julho de 2012 – que no contexto das revoluções da indevidamente chamada “Primavera Árabe”, a Síria constitui um caso atípico. Nomeadamente porque não é aí tão nítida a prevalência das três chaves do poder no mundo árabe, ou de parte delas, tribal, militar e religiosa, como muito bem Mathieu Guidère salienta no seu livro O choque das revoluções árabes (Edições 70, Coimbra, 2012).
A evolução do conflito tornou a Síria peão de três patamares de conflitos que a ultrapassam. Ao nível global, do conflito EUA-Rússia pela disputa de zonas de influência (os fatores de conflito da guerra-fria não desapareceram totalmente). Ao nível regional, do conflito Petromonarquias do Golfo-Irão, identitário religioso no interior do islão entre sunitas e xiitas. Ao nível local, do conflito israelo-árabe, presentemente focado na disputa entre Israel e a Palestina, mas onde o Hezbollah assume cada vez maior protagonismo.
A verdade é que a atual liderança norte-americana, apesar de tudo mais sensata e menos unilateralista do que a administração W. Bush, parece ter sido sensível aos alertas de Moscovo e apanhou um susto com o visível avanço da Al Qaeda e do radicalismo jihadistas no complexo puzzle da oposição Síria. E os percursos desviantes e surpreendentes das revoluções árabes na Tunísia, na Líbia, no Egito, são muito pouco tranquilizadores para o Ocidente.
Há vários siais que, entretanto, já se vão recolhendo da tragédia na Síria.
Em primeiro lugar a confirmação da influência de três potências que aumentaram a sua projeção internacional, a Rússia, a China e o Irão, exatamente os três parceiros do projeto euroasianista que, desde os últimos anos da guerra-fria, vem fazendo o seu percurso contra a hegemonia ocidental.
Em segundo lugar a crescente capacidade de afirmação dos BRICS a nível global, já que o Brasil, India e África do Sul apoiaram a posição russo-chinesa contra qualquer intervenção militar que não resultasse de uma resolução no Conselho de Segurança da ONU.
Em terceiro lugar a demonstração de que são possíveis soluções para a questão das armas de destruição maciça, incluindo as armas nucleares, que não passem pelas ações preventivas da contra-proliferação, tão ao gosto do Pentágono. O clima de desanuviamento que se esboça entre os EUA e o Irão, inclusivamente sobre o programa nuclear iraniano, está intimamente associada à dinâmica desencadeada pela solução para as armas químicas da Síria.
Mas não há aqui nada de definitivo.
Comparado, porém, com o clima pesado do verão passado, em que o ataque à Síria parecia iminente com consequências mal calculadas mas que se adivinhavam catastróficas, há sem dúvida uma descompressão.
Congratulemo-nos com o silêncio dos media.
21 de Outubro de 2012
