NOTA INTRODUTÓRIA
Por Carlos Loures
Ontem, quinta-feira, dia 24 de Outubro, completaram-se 84 anos sobre uma outra quinta-feira – aquela que passou à história como a quinta-feira negra. O crash, a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, desencadeou a maior crise económica de que há memória – historiadores há que a consideram como o detonador das tragédias que assolaram o mundo na década e meia seguinte – a começar pela ascensão dos totalitarismos de extrema-direita, que se apresentavam, como única salvação para o desabar de toda a estrutura social, económica e política que, com o chamado “efeito dominó”, ia provocando convulsões insanáveis; e, como consequência dessa ascensão, a luta pelos mercados, pelos «espaços vitais», que desembocou na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial.
Nessa quinta-feira de 24 de Outubro de 1929 as bolsas perderam 11% do seu valor em negociações de emergência. O pânico e o caos estabeleceram-se entre a comunidade de banqueiros da Wall Street. As soluções de recurso verificaram-se inúteis – mais de seis milhões de títulos financeiros foram vendidos num dia – o crash fez com que empresas e bancos fossem a falência e o valor das bolsas em todo o mundo capitalista caiu muito de um dia para o outro. Muitas pessoas perderam o emprego, havia pânico entre as pessoas, levando algumas ao suicídio, inclusive 11 especuladores da bolsa. O desemprego brutal fez com que a produção industrial americana ficasse reduzida a 54%. O mercado perdeu mais de 30 mil milhões de dólares em dois dias. A guerra que se desencadeou dez anos depois foi a solução encontrada. Perderam-se mais de 60 milhões de vidas humanas, mas a Economia mundial restabeleceu o seu equilíbrio.
O sistema não olha a despesas…
SÍNTESE DA SITUAÇÃO NA UNIÃO EUROPEIA
Por Júlio Marques Mota
A relembrar o 84º aniversário da quinta-feira negra de 1929, que posso eu hoje assinalar? A relembrar esse dia, a relembrar a Grande Depressão de 1929-1933, relembremos o caminho que agora se anda a percorrer na Europa.
Como se assinala num texto já publicado neste blog na Série A caminho dos anos 30:
“O choque que atingiu a economia mundial em 2008 foi equivalente em intensidade, em profundidade, em dimensão, ao choque que lançou a economia americana na Grande Depressão de 1929 . Nos 12 meses que se seguiram ao pico económico de 2008, a produção industrial caiu tanto como ela caiu no primeiro ano da Grande Depressão de 1929 . Os preços dos títulos e o comércio global caíram ainda mais. Mas desta vez sem ser seguida, depois, como o foi nessa altura, por uma grande depressão. Embora a produção industrial mundial tenha diminuído de 13% do seu valor máximo ao seu valor mínimo alcançado no que era já definitivamente uma recessão profunda, esta produção caiu cerca de 40% na década de 1930. As taxas de desemprego na América e na Europa subiram para um pouco mais de 10% na crise recente; os valores correspondentes na crise de 1929 são estimados terem alcançado perto de 25% na década de 1930. Esta notável diferença nos resultados deve-se, e em muito, às lições aprendidas com a depressão.
Uma visão mais habitual entre os economistas, no entanto, é a de que as políticas monetárias e orçamentais restritivas aplicadas em simultâneo transformaram uma situação difícil numa situação terrível, a Grande Depressão”, que curiosamente se desencadeia a partir da Europa, dos efeitos de contágio da falência do maior banco austríaco, o Credit-Anstalt, verificada em Maio de 1931, que foi imediatamente seguida de corrida aos bancos na Hungria, Checoslováquia, Polónia, Roménia.
Como assinala Brad DeLong também num texto por nós publicado nesta mesma série e com a devida autorização do autor:
A crise de 1931 começou, como observa Kindleberger, num centro financeiro europeu relativamente menor, Viena, mas quando deixou de ser gerível, transmitiu-se primeiramente para Berlim e, em seguida, com consequências ainda mais graves, contagiou Londres e Nova York também. Isto foi no século XX o mais claro e dramático exemplo de que as crises financeiras rapidamente podem transformar-se e expandirem-se como verdadeiras metástases e quase que instantaneamente. Em 1931, estas metástases espalharam-se através de vários e diferentes canais. Os bancos alemães detinham depósitos em Viena. Os bancos comerciais de Londres tinham alargado os seus créditos aos bancos e às empresas alemães para ajudar a financiar o comércio exterior do país. Além das ligações financeiras, havia também ligações psicológicas: assim que um grande banco caiu em Viena, os investidores, não tendo nenhuma maneira de o saber com segurança começaram a temer que problemas semelhantes pudessem estar à espreita nos sistemas bancários de outros países europeus e nos EUA. Da mesma forma que os problemas de um país pequeno, a Grécia, poderiam ameaçar todo o sistema europeu em 2012, os problemas de um pequeno país, a Áustria, poderiam , e puderam, constituir uma ameaça mortífera para todo o sistema financeiro global em 1931, dada a ausência de medidas eficazes para evitar a sua propagação”.
E continua Brad DeLong:
“Poder-se-ia esperar que algo teria sido aprendido com este corpo considerável de estudos académicos. Ainda hoje, para nossa surpresa, o alarme e o desânimo, aquilo a que estamos a assistir é uma reprodução inquietante da crise da Europa de 1931. Mais uma vez, pânico e disfuncionamentos a nível dos mercados financeiros são largamente difundidos. E, uma vez mais, a Europa não tem nenhuma potência hegemónica – um poder económico dominante capaz de assumir e defender os interesses das potências menores e a operar num vasto sistema internacional em que estaria a levar em consideração os fluxos de estabilização quer das finanças quer também das despesas através da economia europeia. O BCE não acredita que ele tem essa autoridade: o seu mandato, é o seu argumento, obriga a que mecanicamente se defenda uma meta de inflação – que ele define na prática como sendo um tecto para a inflação. Ele não está autorizado, habilitado, argumenta o BCE, a operar como um refinanciador de última instância face aos mercados financeiros em situação de disfuncionamento , a indispensabilidade de um refinanciador de última instância em tempos de crise, sendo esta uma outra mensagem poderosa do livro The World in Depression. A UE, um conjunto diversificado de mais de duas dezenas de Estados, considera que é difícil alcançar o consenso quanto à forma de reagir. E mesmo naquelas situações muito raras onde parece que se alcançou qualquer coisa que se aproxima de um consenso, a capacidade de resposta e de aplicação do consenso supostamente alcançado, a seguir, é de tal forma lenta, tão lenta, tão lenta quando comparada com a crise , uma vez que esta é bastante rápida na sua acção.”
Estamos a passos largos a caminhar para uma situação económica e social que se assemelha á que antecedeu a ascensão de Hitler ao poder, sob a cumplicidade e responsabilidade de muita gente, e em particular pelos dirigentes da social/democracia da Alemanha.
Imagens dos tempos de hoje a ilustrar a pequena frase acima:
Inglaterra:
Evolução da produção industrial :
Mas entretanto, o Le Monde noticia hoje:
O crescimento da economia britânica também se acelerou no terceiro trimestre, com o PIB a progredir 0,8% sobre o período e relativamente ao trimestre anterior, segundo uma primeira estimativa lançada pelo Instituto Nacional das Estatísticas (ONS). A economia britânica está ainda abaixo de seu pico de 2,5% no primeiro trimestre de 2008, um pouco antes da crise. O governo do conservador David Cameron apressou-se a saudar a publicação destes valores que “mostram que o trabalho duro da Grã-Bretanha paga-se, está a dar resultados, e que o país está no caminho da prosperidade,” ao prosseguir as políticas de austeridade…
E veja-se que a produção industrial em 2012 no país que foi o berço da Revolução Industrial era em 2012 inferior à obtida em 1990!
Olhemos para a evolução do PIB e compare-se com o que seria a manutenção da tendência:
Mas que Cameron fala em êxitos continuemos, até para confronto com os dados da Zona Euro e, apesar da quantitative easing a gastar tanta tinta e a imprimir tanta nota de Libra, vejamos a evolução da divida:
Olhemos agora para a França:
A política social francesa, organizada por um governo dito socialista e que ganhou as eleições na base de uma campanha feita a favor de uma política de expansão económica. Agora, é a Troika que avisa: cuidado, senhores socialistas, nada de exageros com as políticas de austeridade.
A austeridade em período de recessão, exactamente o que fez Heinrich Bruning na Alemanha, Pierre Laval na França de Vichy, exactamente o que a Troika tem andando a impor a toda a gente sob o seu comando é feita agora em França por François Hollande e entretanto a Frente Nacional (Le Pen) vai aumentado o seu score eleitoral! O desemprego sobe, o PS deu meia volta e colocou-se no campo oposto ao programa que Hollande na sua campanha defendeu. O desemprego aumenta, Marina Le Pen aumenta a sua votação. Foi assim antes. Lembremos então Hitler:
Mas as coisas são o que foram. Não as podemos esquecer.
E, como o desemprego aumentou, a votação do partido nazi subiu também. O partido que tinha tido 2,9% dos votos em 1924 e 2,6% dos votos nas urnas de 1928, obteve a seguir 19,2 nas eleições de 1930 e já 38,4% nas eleições de 1932.
Passemos a olhar para um quadro mais geral, a Europa.
Vejamos os níveis relativos de dívida na Europa, numa crise que é suposta ser uma crise da dívida pública e não uma crise do sistema:
Quanto à eficácia das políticas de austeridade na prossecução dos objectivos com essas políticas pretendidos, aqui apresentamos um gráfico que fala mais alto do que a aparelhagem que forneceria o som para a cidade de Lisboa com uma qualquer banda daquelas que só fazem barulho, como a dos Gun and Roses ilustrou.
Olhem para a eficácia dos êxitos dos países sob a regra da condicionalidade, a canga dos burros imposta pela Troika , e em que claramente a Eslovénia será o próximo país a fazer parte do grupo dos países europeus já desabrigados e mais espoliados, portanto, pela União Europeia .
Então se continuarmos parados e a não saber utilizar a arma das urnas vamos a caminho de onde? Esta é a pergunta que vos deixo.









