Já aqui temos falado sobre o contraste entre o Islão medieval e o dos nossos dias – mais tolerante o de há um milénio atrás. O Corão tem sido manipulado pela estrutura clerical islâmica ao sabor dos interesses políticos dos poderosos. O mesmo que se passou com as igrejas cristãs, nomeadamente com a católica e com as igrejas reformadas – a intrumentalização da Bíblia – os concílios foram fabricando dogmas, instituindo ou destituindo figuras e conceitos. No entanto, esta evolução da tolerância islâmica num sentido negativo, não se processou de uma forma linear. Quando comparamos a situação da mulher muçulmana nos dias de hoje com aquela de que desfrutava noutras épocas, é preciso levar em linha de conta muitos factores. Iremos falando um pouco sobre esses temas nesta curta série.
As fotografias de Fábio Roque, colhidas nos países magrebinos, mostram mulheres muçulmanas de hoje no seu dia a dia. São, como se pode ver, instantâneos que procuram documentar a realidade e não embelezá-la. Não ilustram os poemas, nem os poemas constituem legenda adequada para as imagens. O esforço que se pede a quem vê e a quem lê é o de reflectir sobre a mutabilidade dos comportamentos. Iremos acompanhando as fotografias de pequenos apontamentos históricos. Embora os poemas não tenham sido seleccionados em função das fotos, existe algum nexo entre este trabalho de Fábio Roque e o poema que escolhemos para começar um poema de HAFSA BINT AL HAYY AL RAKUNIYYA, filha de um nobre de origem berbere. Nasceu em Granada em 1135 (m. em 1191). Em Granada decorreu a sua infância e a sua juventude num clima de grande agitação social e política – assistiu à quda do Império Almorávide e à instauração do califado Almóada. É um poema dedicado a um amante – Abū Ŷa‘far ibn Sa‘īd, um rebelde andalusie contra o poder instituído. Atente-se no tom libertino com que descreve os seus próprios encantos – hoje, mais de oito séculos depois, em muitos estados islâmicos, Hafsa teria sérios problemas.
Uma visita chega a tua casa:
o seu colo é de gazela,
lua crescente sobre a noite;
o seu olhar posssui o feitiço da Babilónia
e a saliva da sua boca é melhor
do que a seiva das parras,
as maçãs do seu rosto desafiam as rosas
e os seus dentes envergonham as pérolas,
– pode entrar, com o teu assentimento,
ou deverá ir-se, por algum motivo?
(Tradução feita a partir da versão em castelhano do Professor Vicente Cantarino)


Espectacular este poema ….com a mudança dos tempos ,muitos mais se vai conhecer – Obrigada -Maria