Às oito da tarde em ponto, o senhor Fernando taxista, que se tornara um apoio indispensável para António e Cecília, voltou ao hotel. Na recepção tinham colhido um folheto anunciando o La Roca, um restaurante uruguaio situado quase no extremo leste da ilha, no sentido inverso ao da Calheta, na direcção da Ponta da Galé e do Ilhéu de Cima – junto do Porto de Abrigo . O La Roca – Yacht Club era especializado em grelhados e o recepcionista dissera maravilhas. Só servia jantares. Enquanto percorriam os cerca de três quilómetros do trajecto, o taxista, sempre falador, confirmou a qualidade dos produtos, carne ou peixe, que o restaurante usava na confecção dos grelhados. E disse mais – o dono era um conhecido «militar de Abril», um oficial da Força Aérea, membro da coordenadora do MFA… O senhor Fernando era uma verdadeira central de informações.
E não ficaram desiludidos – um espaço amplo, um bom serviço e comida de uma qualidade impecável. A alusão ao MFA levou António a recordar o que se passara na madrugada de 25 de Novembro. Arnaldo levara o carro até à Parede, ao «hospital» que um pequeno movimento dissidente do Partido Socialista mantinha e onde médicos, enfermeiros, voluntários, davam consultas e faziam pequenas cirurgias e tratamentos. Estava, naquela tormentosa noite, transformado em quartel. Cerca de uma centena de homens estavam ali concentrados, prontos para seguir para onde fossem necessários. Havia de tudo – gente do PC, do PS, mas maioritariamente militantes de partidos extra-parlamentares. Arnaldo era o comandante político e fez uma arenga – estavam «em prontidão». Havia uma ligação ao quartel de Artilharia de Oeiras, uma bateria de costa. Quando fosse necessária a intervenção daquelac ompanhia, o comandante da bateria, um major, nandaria veículos militares para transportar aquela tropa fandanga. Armados com espingardas G-3, foram informados que os carregadores municiados seriam distribuídos pouco antes daa partida para o objectivo. Com a enfermaria principal transformada em caserna, António, que entretanto despira as roupas civis e vestira o camuflado militar, sentara-se num beliche. Alfredo sentou-se na cama ao lado. E falara de muita coisa – de Moçambique, inclusive…
-Vens muito calado – disse-lhe Cecília.
Tinham pedido ao senhor Fernando que os fora buscar ao La Roca, que os deixasse no centro. A noite estava amena, era cedo e iriam a pé até ao hotel.