Toco à campainha do n°32, todavia a D. Graziela não abre, faço a seguir uma pausa no lavadouro, um espaço estragado pelo cimento; há dois anos, também aqui, lamentei a falta de sombra, ora hoje está a chover… Gosto desta memória do Caminho de Santiago, sentei-me nas pedras com Sérgio, naquele trilho surgiram os suecos, além almocei com os franceses, a seguir conversei com um habitante, quatro camadas de sensações, encontros e peripécias para mim significativos, embora não comparáveis com o que na Idade Média surgia nas curvas; chegar ao túmulo do apóstolo era tal prodígio que valia o perdão de todos os pecados. (No que me toca: não busco de maneira nenhuma aventuras, apenas uma modificação do ponto de vista.)
Entretanto os espaços habitados, os terrenos cultivados transformaram-se, só algumas pedras das vias, das pontes, alguns pedregulhos onde amanhã me hei de sentar já aqui estavam quando, no tempo de D. Afonso Henriques, os cristãos passavam em busca da Compostela. Aproveito a pausa para saborear uma maçã, fruto que um peregrino do século XII não comeria em abril e, comendo-a, outra variedade com outro paladar seria, descasco uma laranja doce que nenhum europeu então conhecia, também o que visto, o que faço quando chego ao albergue, as botas, o impermeável, o saco-cama, o duche quotidiano, a lavagem da roupa são necessidades, confortos, hábitos que lhes eram tão alheios quanto as minhas motivações… Não somos os mesmos, não atravessamos o mesmo espaço mas a experiência fundamental permanece a mesma: a ação do Caminho nos corpos (e portanto nos espíritos).
A chuva interrompe-me as comparações, a água precipita-se escadas abaixo, parece que despejam camiões-cisterna, acelero a arrumação dos sacos, lanço a mochila às costas, urge desparchar-me daqui, partir antes que isto se encha.