A ILUSÃO DA AUSTERIDADE, PORQUE É QUE UMA MÁ IDEIA CONQUISTOU O OCIDENTE, por MARK BLYTH(1) – I

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A ilusão de austeridade, porque é que uma má ideia conquistou o Ocidente

Mark Blyth

markblyth “Something more will have to be cut”: graffiti in Seville, Spain, November 2012 (Reuters / Marcelo Del Pozo)

Incapaz de agir de forma construtiva e no sentido de um fim em comum, o Congresso dos EUA recentemente decidiu começar a jogar ao jogo do frango com a economia americana. O descalabro da discussão à volta do tecto da dívida abriu o caminho para o abismo “fiscal”, que se transformou em cortes lineares nos gastos militares e cortes discricionários na despesa conhecidos como o “sequestro”. Aconteça o que acontecer em seguida no campo dos impostos, é provável que venha a haver mais cortes na despesa pública. E, portanto, estamos com uma forma modificada da austeridade que tem caracterizado a formulação de políticas na Europa desde 2010 está agora a ser aplicada nos Estados Unidos também; as perguntas que se levantam são a de qual vai o sucesso de tudo isto e a de quem é que irá pagar a factura ou seja, quem é que vai suportar o peso de tudo isto. O que faz tudo tão absurdo é o facto de que o exemplo europeu demonstrou uma vez mais, porque é que aderir ao clube da austeridade é exactamente a atitude errada para uma economia que está em dificuldades para conseguir sair da crise.

Os países da zona euro, o Reino Unido e os Estados bálticos, ofereceram-se como voluntários para uma grande experiência em que se pretende saber se é possível, para um país economicamente em situação de estagnação, traçar o seu caminho para a prosperidade. A austeridade – a deflação deliberada de salários nacionais e dos preços através de fortes cortes nas despesas públicas – foi projectada para reduzir a situação de endividamento dos Estados devedores assim como dos seus défices, para aumentar a sua competitividade e para restaurar o que é vagamente referido como a “confiança empresarial.” O último ponto é fundamental: os defensores da austeridade acreditam que cortar nas despesas públicas estimula o investimento privado, desde que isso signifique que o governo nem vai gerar nenhum efeito de evicção do mercado de investimento com os seus próprios esforços para estimular a economia, nem vai estar a aumentar a sua carga de dívida. Consumidores e produtores, o argumento é assim mesmo , estes agentes ir-se-ão sentir, ambos os grupos, confiantes quanto ao seu futuro e vão gastar mais, permitindo-se assim que a economia volte novamente a crescer.

Em consonância com tal linha de pensamento e na sequência do choque da recente crise financeira, que provocou um crescimento rápido da dívida pública, uma grande parte da Europa tem andado a aplicar as políticas austeridade de consistente durante os últimos quatro anos. Os resultados desta política encontram-se bem visíveis e são igualmente consistentes: a austeridade não funcionou, não funciona. A maioria das economias da periferia da zona euro está em queda livre desde 2009 e no quarto trimestre de 2012, a zona euro como um todo contraiu-se pela primeira vez. A economia de Portugal recuou 1,8%, a de Itália caiu 0,9 por cento e até mesmo a suposta grande potência da região, a Alemanha, viu a sua economia contrair-se 0,6 por cento. O Reino Unido, apesar de não estar na zona do euro, só à justa escapou de ser considerada a economia de um país do mundo desenvolvido com uma recessão em triplo V.

A única surpresa é que isso deve parecer estar a acontecer como sendo uma verdadeira surpresa. Afinal, o Fundo Monetário Internacional advertiu em Julho de 2012 que cortes simultâneos nas despesas públicas em economias interligadas durante uma recessão, quando as taxas de juro já estão muito baixas, poderão inevitavelmente vir a prejudicar as perspectivas de crescimento. E esse aviso foi publicado quando já era ampla a evidência de que todos os países que tinham abraçado a austeridade como a política escolhida, tinham elevado significativamente o seu valor da dívida relativamente aos valores de partida. A relação dívida pública/ PIB de Portugal aumentou de 62 por cento em 2006 para 108%, em 2012. A mesma relação para a Irlanda em que esta mais do que quadruplicou, de 24,8% em 2007 para 106,4% em 2012. O rácio de dívida-PIB na Grécia subiu de 106% em 2007 para 170 por cento em 2012. E a dívida da Letónia passou de 10,7 por cento do PIB em 2007 para 42 por cento em 2012. Nenhuma destas estatísticas começou a contabilizar os custos sociais da austeridade, que incluem os elevados níveis de desemprego nunca vistos desde a década de 1930, nos países que agora compõem a zona euro. Então porque é que a administração publica de cada um dos países da zona euro, e não só da zona euro como é o caso da Inglaterra, , se mantêm nesta trajectória, nesta espiral recessiva ? ..

A austeridade tornou-se e continua a ser a resposta de referência a adoptar contra o incumprimento, no quadro da actual crise financeira na zona euro quer por razões de ordem material, quer por razões de ordem ideológica. Materialmente, isto é assim porque há muito poucas opções de política económica que esteja facilmente disponíveis. Ao contrário dos Estados Unidos, que foi capaz de resgatar os seus bancos em 2008 porque tinha Tesouro federal e tinha um Banco Central que pode facilmente aceitar qualquer tipo de garantia que quisesse, enquanto a UE tinha que estar a sustentar a própria falência do seu sistema bancário (que era três vezes maior e duas vezes mais alavancado que o sistema bancário dos EUA), com apenas um pouco mais de liquidez adicional, com cortes na despesa pública, e encantada com o seu “compromisso inabalável” para com o euro. O sistema bancário dos EUA tem espalhado a sua dívida e este tem-se recapitalizado, estando agora pronto para o crescimento económico. A UE, dada a sua composição institucional, não ainda foi capaz de iniciar esse processo. Como resultado, as economias da zona euro continuam a contrair-se, apesar da promessa cada vez mais duvidosa de que a confiança está a regressar.

(continua)

_____

(1) – Publicamos este texto com a devida vénia a Mark Blyth  e à revista electrónica Foreign Affairs.

http://www.foreignaffairs.com/articles/139105/mark-blyth/the-austerity-delusion

Mark Blyth, que é professor de economia política internacional na Universidade de Brown, nos EUA,  publicou recentemente uma obra sobre este tema, Austerity, The History of A Dangerous Idea, na Barnes & Noble. Este livro já foi traduzido para português e lançado em Portugal em Outubro passado. Mostramos a capa do original:

019982830X-195

Leiam esta nota no Sol:

http://sol.sapo.pt/inicio/Economia/Interior.aspx?content_id=87903