APRENDENDO A GOSTAR DE MÚSICA CLÁSSICA… por clara castilho

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A menina tem 5 anos. A mãe levou-a a um concerto de homenagem a Santa Cecília, na igreja de Sta Catarina, com actuações de crianças e jovens de “Os Violinhos”.

Seis horas da tarde, já noite de um domingo chuvoso. A menina entrou num espaço desconhecido, ensopada por uma carga de água. Lá dentro estava muito escuro, só umas luzes eléctricas iluminavam o altar e velas espalhadas por todo o espaço convidavam a um clima de recolhimento, mas para ela também de mistério.

Foi levada para um dos lados, num local acessível a uma retirada estratégica, caso não aguentasse manter-se em silêncio durante todo o concerto. Sentiu-se abafada e coagida. A espectáculos já ela tinha ido muitas vezes. Mas nunca a um sítio daqueles. Paredes douradas, muitas estátuas, bancos compridos onde as pessoas se sentavam, caladas ou falando muito baixinho. A menina começou a bichanar: “Que sítio é este?” A mãe respondeu-lhe: ”É uma igreja”. O diálogo continuou: “O que é isso?”. “É um sítio onde se vem rezar”. “O que é isso?”. A mãe, enrascada, disse que lhe explicava em casa, mas temendo não o saber fazer devidamente, já que não era praticante nem crente.

O rabo mexia-se na cadeira. A mãe deu-lhe um caderno e lápis. A menina começou a fazer bonecos.

musica em igreja

Iniciou-se a música. Olhou interessada para os meninos a tocar. Inquiriu a mãe. Esta foi nomeando o nome dos instrumentos e aproveitou para realçar o treino que os meninos tinham que fazer desde pequeninos. A sua capacidade de concentração finou-se e a capacidade de imobilização manteve-se com o cortar com a realidade que a rodeava. Cantarolando, mergulhou no espaço branco do bloco de papel e foi desenhando histórias… Tentava encaixar as novas informações com as que já tinha. Remexendo-se na cadeira, batendo com os pés no banco de madeira, aceitou a mão da mãe, assinalando-lhe ternamente, com um pedido mudo, que ali tinha que estar quieta. E tentou corresponder-lhe porque via na cara da mãe que ela estava a gostar de estar ali.

Conhecera um espaço novo que lhe trazia muitas interrogações. Ficara curiosa com o silêncio, quando o seu dia era passado em interacção e agitação. Ficara a saber que meninos pequeninos também podiam tocar instrumentos musicais, daqueles sérios, não os de brincar como os dela.

Desenhou três meninos, uma casinha, uma bruxa – na escola tinham estado a ler a “casinha de chocolate”. Foi desenhando os doces que cobrem a casa e tinham atraído os meninos. Ela também adora gomas. Haverá uma bruxa má na loja da esquina? Se há, como ela lá vai com a mãe, não lhe poderá fazer mal…

O concerto acabou. Bate palmas como os outros – nisto ela pode participar. E até gostou de ouvir. Só não gostou de não poder falar. As pessoas cumprimentaram-se e retiraram-se. Continuava a chover. Em casa poderá bater à vontade no tambor, pular em cima do sofá. E adormecer na segurança do seu nicho afectivo, pensando na luz das velas, nos sons melodiosos e no clima que ali partilhou.

 

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