UM PINTOR NAS “TRINCHAS”*, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

II

Dois meses depois, estando em Ferme du Bois, novamente um automóvel do Q. G. me trouxe Sousa Lopes. Vinha radiante. Já passara alguns dias num sector da extrema esquerda, fizera cartões de que tinha direito a orgulhar-se, e vinha pedir-me que o recebesse na minha trincha e o hospedasse durante um período ou dois. Nessa mesma tarde, embora a minha gente estivesse em reserva, fomos dar juntos um passeio até aos domínios que haviam de ser nossos dentro de algumas horas. No dia da rendição, fiel ao seu compromisso, Sousa Lopes deu entrada no Pátio das Osgas, o museu de Ferme du Bois, seguido de um soldado que sobraçava, além da diminuta bagagem do pintor, a pasta dos seus desenhos.

Daí por diante, durante uns quinze dias, o autor do célebre retrato de Verhnhem foi um lãzudo autêntico. Ouvi-lhe dizer mais de uma vez – e creio na sua sinceridade – que não esqueceria nunca mais a sua permanência entre nós, o bom humor constante que reinava nos meus rapazes, a alegria despreocupada que animava o Pátio das Osgas e fazia com que as noites decorressem entre ditos e anedotas, alumiadas por punchs sucessivos de que o artista, sóbrio por convicção, se arredava um pouco, mas que davam à sua retina de pintor especializado em colher efeitos de neve, de luar e de toda a sorte de iluminações estranhas, aspectos curiosos que ele fixou em croquis magníficos.

Os soldados, vendo-o entrar, de rosto glabro e rosado, de falas mansas e gestos comedidos, tinham-no imediatamente baptizado: – «Aquele nosso capelão que tira fotografias com um lápis… » E ele, logo de manhã cedo, começava a trabalhar. Seguia pelo sector fora, parando aqui para fixar uma dobra de trincheira interessante, mais adiante para desenhar um dog-out ou um posto de gás. E os lãzudos que circulavam abaixo e acima, na vida habitual, pasmavam de encontrar de súbito, sentado sobre uma banqueta, aquele senhor capitão, de óculos postos, que os não mandava cavar, que os não tratava por tu e estava ali tão entretido a desenhar. Em vinte e quatro horas tinha conquistado toda a gente, oficiais e soldados, e, acima das suas qualidades pessoais ou de artista, todos nos sentíamos encantados pela camaradagem voluntária dalguém a quem os morteiros e granadas não impressionavam, que nem pensava mesmo nisso, pois – confesso – nunca vi serenidade que se assemelhasse à do nosso «capelão que tirava retratos com um lápis».

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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