CELEBRANDO LUCÍLIA DO CARMO – 1 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os temas de Lucília do Carmo, há que aceder à página 

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/celebrando-lucilia-do-carmo.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 Imagem1«”A minha Mãe foi uma das fadistas mais importantes deste século [séc. XX]”. A frase, de Carlos do Carmo, só peca por defeito: na verdade, não foi só deste mas será de todos os séculos, por muitos que passem e por muito bons fadistas que apareçam. Enquanto for possível preservar as memórias do Fado, o lugar de Lucília do Carmo como grande figura é inquestionável.

Nascida em Portalegre, nos finais de 1920, aí ensaiou os primeiros voos, até sentir que os seus dotes seriam mais apreciados em Lisboa. Não se enganou. Deu nas vistas desde logo, estreando-se como profissional apenas com 17 anos e actuando nas melhores casas típicas de então. Casou com o empresário Alfredo de Almeida, homem cultivado e de apurado sentido artístico — era também actor amador — que seria determinante na modelação da excelente matéria-prima que era a voz de Lucília do Carmo, refinando-lhe as qualidades, cuidando das letras, instilando exigência. Em 1947, abriu uma casa de fados que se tornaria histórica, inicialmente chamada “Adega da Lucília”, mais tarde “O Faia”. A morte prematura do marido deixou, a Lucília do Carmo, uma viuvez assumida para sempre e um filho que assegurou a direcção da casa, antes e depois de se tornar, por mérito próprio, num consagrado intérprete.

No “Faia”, Lucília do Carmo não temeu rodear-se (ao contrário de muitas “estrelas”) de grandes vozes no elenco: Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Tristão da Silva, Maria José da Guia, Beatriz da Conceição, entre muitos outros. A sua personalidade impunha-a, para além de artista, como anfitriã. Foi a penúltima grande dona de uma casa de fados (a última é Argentina Santos). Num contexto quase feudal, à moda antiga, tratada com reverência pelo pessoal, recebia como uma rainha, afável mas distante. Os grandes apreciadores não iam “aos fados”, iam “à Lucília”.

Quando cantava, traçava o xaile de uma forma peculiar, emaranhava os dedos nos cadilhos, torcia-os levemente, semicerrava os olhos e dava primazia à voz, com a maior sobriedade, no que alguém definiu como “um porte de imperatriz”.

Deixou uma discografia inversamente proporcional ao seu valor. Isto porque era avessa ao estúdio, ao ambiente das gravações, tanto quanto ao palco e às entrevistas. Quem a quisesse ouvir, em êxtase, era na sua casa. Aí, em duas ou três noites de privilégio, Maria Teresa de Noronha em visita e Alfredo Marceneiro deixavam-se ficar. Depois de sair o último cliente e todo o pessoal, apagavam-se as luzes e fechava-se a porta à chave, por dentro. Apenas com os guitarristas, num recanto da sala vazia, cada um dos três monstros sagrados pedia aos outros o que mais gostava de lhes ouvir. E era a magia de soberbas interpretações, na intimidade de grandes senhores de um género musical único, em partilha, na cumplicidade da ausência de testemunhas. Melhor dizendo, havia duas: José António Sabrosa, marido de Maria Teresa de Noronha, e o ainda adolescente Carlos do Carmo que aí decidiu pertencer também à raça dos eleitos.

Esta “biografia” permite acompanhar a evolução de Lucília do Carmo. As primeiras gravações patenteiam a voz muito clara e fresca da juventude, de tonalidades mais agudas do que mais tarde nos habituou, mas já com a dicção que lhe foi característica, matizando as vogais, arredondando-as, esculpindo-as a partir da vulgaridade de quem fala para as transformar em arte de quem canta. Os seus inconfundíveis “rr”, rolados no ápex da língua — e não guturais, como é apanágio da pronúncia de Lisboa traziam a originalidade de se ouvirem pouco nos fadistas da capital. A maturidade trouxe segurança e cunho pessoal à interpretação. Deu-lhe uma voz mais volumosa e quente, até se apresentar ligeiramente velada com o tempo, o que no Fado é enriquecimento, mais uma cor a acrescentar à paleta que os grandes fadistas conseguem usar em plenitude até muito tarde, para regalo de quem os ouve. Constante foi a melhoria de sensibilidade fadista, o saber transmitir estados de alma enfatizando musicalmente a letra, daquela maneira que nem o poeta suspeita ao escrevê-la.

As duas faixas de abertura, “Recordações” e “Amor Desfeito”, gravadas ainda em discos de 78 rotações, em 1958, são já um primor de qualidade, ainda sem grandes arrojos mas perfeitamente reveladoras de que uma voz nova e espectacular havia surgido no Fado de Lisboa. “Amor Desfeito” mostra uma curiosa transgressão ao Português, exigida pela métrica popular e condescendente, aquele “só tu fostes o culpado”. Curiosa, por não ser fruto da ignorância nem do letrista nem da intérprete, logo adiante fiéis às regras em “foste mau, foste cruel”. “Foi na Travessa da Palha” [1958], juntamente com “Olhos Garotos” [1958] e “Maria Madalena” [1968] são os primeiros êxitos da Artista. Neles Lucília do Carmo se evidencia por adequar as cambiantes melódicas às intenções dos versos, estes provenientes dos melhores letristas que, reparando no seu talento, lhe entregavam as produções, garantia de mútuo sucesso.

(Continua)

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