Francisco por um automatismo social, levantou-se e pediu à rapariga que se sentasse. Maria, com ar hesitante, sentou-se. O empregado de mesa veio perguntar o que ela queria e o furriel leu no ar do rapaz, um mulato, a sombra de um sorriso. Maria com voz sumida pediu um café. O rapaz com a bandeja apertada contra o peito continuava com o sorriso de troça.
Francisco enervado, fincou-lhe os dedos num braço, com brutalidade:
– Não ouviste o que a senhora pediu? – Atemorizado, o jovem correu para o interior do café.Maria só queria agradecer a vida, a sua vida. Embora, disse ela, nos primeiros momentos o tivesse amaldiçoado, pois as recordações do inferno de Xuvalu não a deixavam dormir. preferia ter morrido.
Francisco, abrindo uma bolsa de cabedal onde transportava documentos e uma pistola, retirou uma fiada de missangas. Os olhos da jovem encheram-se de lágrimas. Tinha sido uma prenda do marido.
Conversaram – Maria falava muito bem português, estudara num colégio religioso no Infulene, no caminho de Lourenço Marques para Matola. Nascera em Xuvalu, os tios e padrinhos é que a tinham trazido para Lourenço Marques, ou melhor, para a Machava, onde o tio tinha uma oficina de bate-chapa. Numas férias escolares, tinha-se enamorado do rapaz com quem casara, Viu-o ser morto à paulada pelo agente Nachawi. A face contraiu-se-lhe num esgar de temor. Francisco disse-lhe que tudo passara, que tentasse viver e esquecer o que se passara naquele dia. Maria pareceu não ouvir o conselho. Disse:
– Está um homem a olhar para nós.
Instintivamente Francisco seguiu a direcção do olhar da rapariga. Um europeu jovem, com um panamá e óculos escuros quando Francisco o encarou, mergulhou o rosto entre as páginas do jornal.
Maria tinha de voltar ao mercado. Despediram-se. Francisco ficou de a procurar. Voltou para a pensão, na Rua Brito Camacho, pois a hora do almoço aproximava-se.
Quando entrou, a D. Amália, dona da pensão, veio dizer-lhe que estava um senhor à sua espera. Francisco foi à sala. O jovem do panamá e óculos escuros ergueu-se do maple.