AO REDOR DO LAROUCO – 8 – por Rui Rosado Vieira

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A LOTARIA ESPANHOLA DO EL GORDO

Com a chegada dos dias quentes e longos de Verão o povoado animava-se. Era ocasião de ceifar, recolher e malhar o centeio, de arrancar as batatas, do trabalho nas hortas se intensificar e das árvores apresentarem pendentes os primeiros frutos. Era a época dos bailaricos no Largo da Fonte, aos domingos, ao som do realejo. Da festa da Senhora da Saúde. Das pessoas se deslocarem às terras próximas, em especial na ocasião das feiras, para adquirir os utensílios necessários às fainas agrícolas.

Aconteceu que, para tratar de assunto do seu interesse, um homem da aldeia teve, por um daqueles dias, de se dirigir à sede do concelho, onde circulava notícia bem singular.

Contava-se que certo indivíduo morador em Tourém se deslocara à feira de Cualedro, na Galiza, e encontrando-se numa taberna, em confraternização com um natural da terra, foi abordado por um cauteleiro para comprar uma fracção do El Gordo, nome atribuído em Espanha à lotaria do Natal.

Os dois amigos resolveram comprar a lotaria a meias, com o claro objectivo de, caso a sorte lhe sorrisse, dividirem o prémio em partes iguais. A cautela ficou em poder do cidadão espanhol, tendo o português tomado nota do número da fracção adquirida. Findo o convívio despediram-se, partindo para as suas respectivas residências.

Semanas depois, o homem de Tourém, deslocou-se a Montalegre onde, ao folhear um jornal da região, verificou que o número do primeiro prémio do El Gordo coincidia com o que comprara e anotara num papel que guardara na carteira.

Não esperou um momento, dirigindo-se de pronto a Cualedro, a casa do amigo, com intenção de reclamar a sua parte no valioso prémio que lhes havia cabido.

Chegado à residência do seu parceiro na aquisição da lotaria espanhola, o português bateu à porta, que lhe foi aberta por alguém que informou ser esposa do homem que procurava.

Após explicar o motivo que ali o trouxera, a interlocutora respondeu, com ar compungido, que o marido morrera na semana anterior e que nada sabia sobre a compra da fracção da lotaria do El Gordo, por parte do seu companheiro.

Na tentativa de encontrar o precioso papel, que os habilitaria ao recebimento de elevadíssima quantia em pesetas, revolveram, sem êxito, carteiras, pastas, gavetas, roupa usada pelo defunto e tudo onde tal documento pudesse eventualmente encontrar-se.

Face à angustiante ineficácia da pesquisa, o português lembrou-se de como o falecido se encontrava vestido no dia em que com ele privara. Usava um fato azul escuro, com finos riscos brancos.

A mulher, sobressaltada, interrompeu-o, dizendo que essa fora a roupa que o seu defunto levara como mortalha.

Face à insólita situação outra alternativa não restava que solicitar junto das autoridades a exumação do cadáver.

Após persistentes esforços conseguiram autorização para escarafunchar a vestimenta do morto, no intuito de encontrar o apetecido papel. Após percorrerem todos os bolsos do fato, acabaram por encontrar o cobiçado papel, muito dobradinho, na pequena algibeira, existente na parte superior do casaco, onde alguns homens costumam colocar lenço vistoso.

Os premiados dividiram entre si, equitativamente, o elevado valor do El Gordo, terminando, assim, a estória bizarra que, no futuro, havia de constituir tema recorrente nas reuniões de convívio das gentes da região.

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