EUGÉNIO TAVARES E O SENTIDO IDENTITÁRIO DO POVO DE CABO VERDE – por Carlos Loures

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Já ouvimos aqui mais do que uma interpretação de Força de Cretcheu, talvez a mais emblemática das mornas de quantas se compuseram (embora Sodade, por mérito de Cesária Évora, tenha por certo uma maior difusão internacional. Escutámos a execução em guitarra clássica do músico português Silvestre Fonseca e a de Gardenia Benrós.Vamos hoje ouvir Solange Cesarovna – ela representou Cabo Verde no Festival AFROVISÃO  realizado em Julho de 2012 na cidade de Abidjan, na Costa do Marfim. Cantou Força de Cretcheu, música e letra de Eugénio Tavares.

A Eugénio Tavares se deve a tomada de consciência, que, por finais do século XIX, se verificou entre as gentes do arquipélago de Cabo Verde de que havia uma cultura genuinamente autóctone. Descendente de europeus, foi dos primeiros a proclamar que os cabo-verdianos tinham direito a uma cultura diferenciada e a uma identidade própria.Imagem1

Eugénio Tavares, foi também um consciencializador activo da cabo-verdianidade, actuando no plano político e cultural e sofrendo as inevitáveis perseguições por parte do poder colonial, sendo obrigado a exilar-se. Quase desconhecido em Portugal ou redutoramente referenciado como «criador de mornas», Eugénio Tavares foi um escritor, jornalista e polemista de grande valor.

Agora que a literatura do arquipélago se afirma como uma das mais pujantes do universo lusófono, com nomes como o do romancista Germano Almeida, como o do grande Daniel Filipe, e o de Arménio Vieira, Prémio Camões de 2009, não devemos esquecer Eugénio Tavares, pioneiro das letras de Cabo Verde.

Eugénio Tavares, nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, onde faleceu em Junho de 1930. Autodidacta, adquiriu grande cultura, transformando-se na figura literária mais importante de Cabo Verde nas primeiras três décadas do século XX. Deixou uma vasta produção, em português e em crioulo – poemas, narrativas, peças de teatro e, sobretudo, artigos jornalísticos. Quando exilado nos Estados Unidos, fundou o jornal «Alvorada» em New Bedford. Com colaboração intensa na «Revista de Cabo Verde» e no jornal «A Voz de Cabo Verde», foi postumamente publicado um volume com as suas «Mornas». Da sua produção poética seleccionámos um poema em português:

Exilado

Pensa no que há de mais sombrio e triste;

terás, destes meus dias vaga imagem;

soturnos céus – como tu nunca viste

nunca os doirou o halo de uma miragem.

O sol – um sol que só de nome existe

envolto na algidez e na brumagem

dum frio como tu nunca sentiste,

do nosso sol parece a morta imagem

imerge o retransido pensamento

nas noites mais escuras, mais glaciais,

prenhes de raios e vendavais;

verás que anos de dor, esse momento passado,

na saudade e no penar,

longe do sol vital do teu olhar!

(Fairhaven, 1900)

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