Note-se que as pessoas esqueceram a letra do Hino da Restauração, escrita no século XIX para uma peça de teatro, mas recordam a música. O regime salazarista apoderou-se de datas e de símbolos nacionais e fascistizou-os aos olhos do povo.
Há uma tendência generalizada entre os outros povos peninsulares subjugados por Castela e integrados no Estado espanhol, para subestimar a independência portuguesa, considerando-a como um mero acidente histórico. Não falamos de gente esclarecida, que sabe situar e valorizar devidamente os factos históricos que conduziram a que este pequeno rectângulo conserve, pelo menos formalmente, a sua independência nacional. Referimo-nos ao imaginário de galegos, bascos, catalães, espanhóis e porque não dizê-lo?, de muitos portugueses. Um exemplo – os catalães costumam atribuir a expulsão dos Áustrias como consequência da Guerra dos Ceifeiros.
A independência política de Portugal deve-se a uma profunda vontade do povo português de não depender de estrangeiros – Portugal sofreu numerosas invasões. Durante a crise de 1383-1385, Lisboa esteve cercada e parte do seu centro foi incendiado pelos projécteis castelhanos. Em 1640, a nobreza portuguesa, que se mantivera surda aos sintomas de insurreição popular enquanto os seus privilégios foram mantidos, ao ver-se mobilizada para a frente da Catalunha, canalizou o ódio do povo aos ocupantes em proveito próprio. Mas foi o povo que aguentou uma guerra durante 28 anos – com jovens adolescentes e velhos a ser integrados nas forças combatentes, derretendo os sinos das igrejas para fabricar canhões, canalizando os fracos recursos económicos para o esforço militar contra uma potência que, ainda que decadente, era bastante mais forte. E vencemos. Sem ser por acaso – porque o povo português não queria ser súbdito da Casa de Áustria. É bom que isso não seja esquecido. Sobretudo num momento em que os estrangeiros, através de gente desprezível, nascida em solo português, voltam a dominar-nos de forma insuportável.
Filipe IV também nos manteve a independência formal. Um povo quase totalmente analfabeto não se deixou iludir. Hoje, com o analfabetismo erradicado, com cerca de 20% de cidadãos com formação superior, deixamo-nos enganar por uma oligarquia indígena ao serviço de interesses alheios ao nosso interesse.
