
- 1881 – 1926
Dedicado a Augusto de Castro, com ilustrações de Francisco Valença, este livro foi publicado em 1924, pela Guimarães & Cª. Informa-nos uma nota que os contos e crónicas que o integram foram publicados em folhetins dominicais no Diário de Notícias de Lisboa. Com a recomendação: Quem não os conhecer que os compre…
A introdução de André Brun diz assim:
“Os meus domingos não são como os de toda a gente. No dia por Jeová escolhido para seu descanso e quando os caixeiros de balcão vão para as hortas comer pescadinhas fritas em bandos guitarrentos e sonoros, sento-me à banca de trabalho e escrevo um rodapé humorístico para um jornal de grande circulação.
O director da gazeta, meu amigo desde sempre, chamou-me uma bela tarde e disse-me ou deu-me a entender:
̶ Trata-se, meu caro, de escreveres todas as semanas, em dia marcado e a horas certas, um folhetim de sete colunas de largo e a horas certas e sessenta linhas de profundidade, que seja muito engraçado. Evitarás de falar em política. Abster-te-ás de alusões pessoais que possam originar melindres. Respeitarás os Bons Costumes, o Comércio, a Indústria, a Finança, a Agricultura. Não magoarás o “Velho assinante”, tratarás de acarinhar o “Assíduo leitor” e, sobretudo, não enxotarás o “Fiel anunciante”. Como te diriges a um grande público, terás que te manter ao nível médio da sua intelectualidade (?). Nada de literatura. Não irrites as populações, nem lhes dês charadas a decifrar. Entre a Ironia mais ou menos subtil e a Boa chalaça portuguesa optarás decididamente por esta. Em resumo: um folhetim que agrade a toda a gente e não cause a ninguém a mínima dor de cabeça…
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E assim me encontrei, todos os domingos, em face dum tempo e duma sociedade que a cada passo desafiam a Sátira cruel, na situação de Beaumarchais a quem era permitido falar de tudo com a condição de não bulir em cousa nenhuma.
Restava-me um recurso: contar aos meus leitores histórias anódinas, destas que divertem indiferentemente as crianças de doze anos e os velhos de oitenta e quatro, que fazem sorrir certos gregos e distraem a maior parte dos troianos e com as quais não vem o mal ao mundo nem se alteram as leis da gravitação universal. Foi o que fiz.
Depois de as escrever e as publicar encontrei o “Velho assinante”, o “Assíduo leitor” e o “ Fiel anunciante”. Estavam contentes. Haviam lido e tinham tido ensejo de se rirem. Alguns, inocentes maníacos, tinham coleccionado os folhetins. Daí proveio a ideia de os reeditar em volume.
Bem sei que não entrarei a dorso destas páginas o pórtico venerável da Academia. De resto não penso pisá-lo nunca, sabido como é que se trata de uma casa austera onde não se pode rir, nem dizer tolices muito alto.
Talvez os que leram os folhetins soltos e com eles se divertiram voltem a ter prazer relendo-os nesta reedição livresca. “Tous les goûts sont dans la nature”. Possível é também que ainda haja em Portugal algum raro indígena que os não tenha lido e sinta agora a curiosidade de abrir estas páginas.
São estes os votos e as esperanças dos meus editores, aos quais me associo da melhor vontade.
Novembro 1923
André Brun”
No próximo domingo A Viagem dos Argonautas começará a publicar o resultado da encomenda do director da gazeta a André Brun. Os escritos datam de 1919 a 1923. Esperamos que os nossos leitores os apreciem, tal como o “Velho assinante”, o “Assíduo leitor” e o “Fiel assinante”. Nós limitámos-nos introduzir algumas pequenas alterações na ortografia, sobretudo na acentuação que nos pareceu vantajoso actualizar. Não por causa de qualquer acordo ortográfico, mas porque nos pareceu melhor para a leitura. Esperamos ouvir as vossas reacções. O autor, lá no céu dos escritores, com certeza que nos perdoa. Escreverá com certeza uma crónica sobre estes tempos difíceis e como são semelhantes aos que ele teve de suportar. Quem sabe se um dia conseguirá fazê-la chegar até nós…


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