RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

ALGUMAS IMAGENS DA ALEMANHA E UM TEXTO DE ACOMPANHAMENTO, de JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte II

(conclusão. É repetido o último parágrafo da parte I)

Em Outubro de 2013 a Alemanha registou cerca de 6,58 milhões de pessoas em situação de forte endividamento. No período homólogo, o número foi ligeiramente mais elevado (6,59 milhões), enquanto que a taxa da população adulta endividada foi superficialmente maior em 2013 comparativamente a 2012 (9.81%  e 9,65%, respetivamente). O aumento desta taxa resulta dos novos resultados do recenseamento da população, sendo o número de pessoas com mais de 18 anos agora considerado em maior número que anteriormente. De forma a tornar a análise destes gráficos mais intuitiva, será então conveniente olhar para as duas tabelas que se seguem, onde na primeira encontramos: os dados populacionais; o número total de adultos; o número de adultos com endividamento excessivo (em termos absolutos e relativos); e o número de famílias excessivamente endividadas.

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A taxa actual de 9,81% da população adulta com forte endividamento é calculada com base no valor total da população adulta alemã, que se cifra em  67.130.000, pessoas com mais de 18 anos de idade, portanto. Neste caso são 3,33 milhões de famílias com fortes problemas permanentes de pagamento face aos seus compromissos financeiros e sem património para lhes dar resposta.  Repare-se que entre 2012 e 2013 o número de endividados sofreu uma queda de 10.000 (-0,2%) todavia, o número de pessoas neste intervalo de idades baixou em 1.180.000 . Ora, o peso da população de idade mais elevada nesta faixa etária diminui e, em regra, estas são estas as menos endividados nesta categoria.

As principais causas da condição de endividamento dos consumidores estão sempre ligadas às diferentes situações em que se encontra o agrado familiar, quer de índole de: doença; desemprego; consumo excessivo ou no facto de não existir uma verdadeira independência económica para um número significativo de pessoas.

Com base num sólido mercado de trabalho, com o emprego a aumentar, o desemprego perdeu importância nos últimos anos como mecanismo explicativo do endividamento excessivo.

Uma independência económica falhada funcionou como um rastilho para desencadear o endividamento – derivado também ele de um  mais baixo número de start-ups (menos de 12 % e menos de 14% entre 2008-2013)

Por outro lado, os efeitos de doença (acima de 14%) e de comportamento inadequado dos consumidores (19%) têm aumentado significativamente nos últimos cinco anos. Tudo isto mostra, em tempos de estabilidade económica, uma diminuição da necessidade de precaução sentida pelos consumidores: os consumidores sentem-se bastante capazes de vir a pagar a antecipação do seu consumo feita através do financiamento pelo crédito. A proporção de gente sobre-endividada mas, com menor intensidade de endividamento aumentou relativamente aos créditos concedidos de forma mais apertada, com mais restrições na admissibilidade, também em consequência de uma maior facilidade na obtenção do crédito (menos credores, requisitos mais baixos para a admissibilidade  e não há registos nas listas de devedores).

Note-se que ano transato registou-se ainda um aumento significativo de endividamento excessivo e em cerca de 190.000 casos de sobreendividamento (+ 3,0%), em que a maioria destes casos adicionais se devem a empréstimos concedidos a uma fatia da população com um nível baixo de sobre-endividamento, (os empréstimos simplificados terão aumentado 7.1% comparativamente aos outros entre 2011 e 2012). Todavia, a taxa actual de pessoas com endividamento excessivo permanece claramente abaixo dos níveis recordes de 2005 a 2008.

Contudo, aproximadamente, tanto em 2013 como o foi em 2012, serão cerca de 3,33 milhões de famílias que estarão sobre-endividadas e com incapacidade de cumprimento por um longo período de tempo (2011: 3,22 milhões 2004: 3,1 milhões). A situação de endividamento nos últimos 12 meses, depois de uma certa acalmia, crispou-se novamente, particularmente no terceiro trimestre de 2013, como se tem mostrado com análises periódicas regulares. A situação nacional e o quadro recessivo que se vive em grande parte na UEM nos últimos 12 meses mostra globalmente uma tendência escalonada ao longo do tempo com impacto fundamentalmente positivo sobre a situação financeira do consumidor alemão.  O PIB da Alemanha, no quarto trimestre de 2012 diminuiu 0,5% tendo no primeiro trimestre de 2013 estagnado.

Analogamente, o consumo privado desempenha um papel importante como suporte da economia interna. O clima de confiança do consumidor alemão e respetiva propensão a consumir estão no presente ano também claramente ao seu mais alto nível , como o mostram as análises detalhadas periodicamente publicadas. ” Mas curiosamente muitos críticos falam já em boom de consumo e de consumerismo, tendo inclusive verificado que uma grande parte desse consumo é feito via recurso ao crédito, bombeado pelos mercados financeiros. [No original:   Doch zahlreiche Kritiker sprechen angesichts des Konsum-Booms auch von „Konsumrausch“ und stellen fest, dass ein immer größerer Teil des Konsums „auf Pump“ finanziert wird].

A Associação Bundesverband Deutscher  Inkasso-Unternehmen E.V.. adverte na sua habitual  análise de Outono: “o consumo excessivo alimentado pelo crédito é uma bomba-relógio que pode causar enormes danos se há uma contracção do ritmo da actividade na economia.” [No original: Ein Konsum auf Pump ist eine tickende Zeitbombe, die bei einem Abschwung der Wirtschaft enormen Schaden zufügen kann.“]

Todavia, tinha-se já observado, durante o ano passado, que o número de casos de endividamento excessivo, mas de baixa intensidade, tinha sido um vector  fundamental  no aumento significativo da taxa de endividamento excessivo. As análises mostraram que a situação económica e a situação de endividamento de muitos, a maioria dos consumidores com baixos rendimentos e parcos em património, foram esmagados pela dívida contraída com o consumo e pela convergência de padrões de consumo entre as duas partes da Alemanha (Ocidental e Oriental).

 Pelo vale que se seguiu levou a que este ano, as encomendas e as compras dos consumidores fossem cada vez mais apoiadas, ou por compras a prestações ou recorrendo ao crédito. Assim, e comparativamente, tem estado a aumentar o valor dos créditos concedidos ao consumo e, em 4p.p.. Actualmente,  1 em cada 3 famílias vive presa/apoiada nos pagamentos a prazo, nas compras a prestações, para dessa forma “financiar as despesas de consumo clássicas, que vai desde a televisão à compra do carro” (2013 :33%; 2012: 29%).  Mesmo que as despesas dos consumidores não tenham necessariamente de conduzir a uma “espiral da dívida”, a situação financeira de muitos consumidores, muitas vezes de baixos rendimentos e patrimónios, virá a ser enfraquecida num ambiente económico  provocado pelas despesas de consumo assente num endividamento excessivo e de longa duração .

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Para ler a parte I deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/03/retratos-imagens-sintese-dos-efeitos-da-crise-da-zona-euro-sobre-cada-pais-205/

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