A CIDADE SITIADA – volume 3 das Obras Completas pela Editora Rocco, Rio, 1998, de Clarice Lispector- por Rachel Gutiérrez

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 Hoje fazemos um desdobramento da secção Livro & Livros para podermos incluir esta recensão de Rachel Imagem1Gutiérrez na homenagem a Clarice Lispector que estamos a levar a cabo ao longo do dia de hoje (data do seu aniversário).

Contemporâneo de O estado de sítio, de Albert Camus, e de As bocas inúteis, de Simone de Beauvoir,  A Cidade Sitiada ,de Clarice Lispector, alia a crônica da transformação de São Geraldo,  cidade do interior ou subúrbio em crescimento numa nebulosa década de 20, ao processo de  libertação de Lucrécia Neves, uma “mulher sitiada”.

 Este romance do olhar, construído num clima de exaltação sinestésica, descreve um pequeno  mundo encantado: os bazares entortavam  a gotejar, (…) uma égua esgazeava o olho como se  estivesse rodeada pela eternidade (…) e a noite apodrecia em grilos e sapos (…) quando  Lucrécia Neves, inesperadamente abriu as grandes asas num bocejo de juventude.

 Em sua inquieta trajetória, Lucrécia tentou aproximar-se de uma associação de moças, namorou  o agressivo Felipe e o belo Perseu, mas casou-se com um bem-sucedido comerciante, Mateus.

Sua grande aventura, porém, era a de transformar-se naquilo que via – sua única vida interior – para a qual dispunha de um só instrumento: a dificuldade. Fogosa como um cavalo ou inatingível como uma  estátua no parque, Lucrécia Neves, sobre o salto de suas botinas, ora andava entre o equilíbrio e o desequilíbrio ora aprumava-se sem se mexer para não desmoronar. Mas São Geraldo a asfixiava.

A inevitável modernização do subúrbio serve de metáfora à subterrânea e inexorável transformação da mulher.

 Este livro, que Santiago Dantas considerou “denso e fechado” é um ponto de mutação,  que já anuncia na obra de Clarice Lispector a extraordinária liberdade criativa de Laços de Família e de A Maçã no escuro.

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