Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 146 – por Manuela Degerine

Metamorfoses

imagem158Jette nunca ouviu falar dos pastorinhos, por conseguinte a mulher, que tem uma promessa por cumprir, decide de pronto acompanhá-la. Logo reparte as tarefas: dá o corpo ao manifesto enquanto o marido leva – de carro – o farnel e as bagagens.

Explico a Jette que os peregrinos portugueses caminham em grupo (para encorajamento mútuo), durante a noite (a paisagem não entra nas motivações) e pela beira da estrada (querem chegar depressa); o retrato inverso dos andarilhos santiagueiros. Malgrado as aparências: uns e outros não seguem o mesmo impulso e não fazem a mesma coisa.

O santuário português é um espaço de fé popular que só agora, com a BTT e a caminhada, começa a ser frequentado por peregrinos – muito raros – sem motivos religiosos; ir a pé a Fátima paga um milagre do qual, pensam os devotos, sem esta contrapartida, não teriam beneficiado: assim no céu como na terra. Ora os que fazem promessas são em Portugal os mais adictos ao carro e ao sofá… Por a postura laboral, o horário de trabalho, a escola dos filhos, o lar dos pais, o SNS, as papeladas, os itinerários sem portagem, enfim, toda a vida portuguesa ser cronófaga (a simplicidade não se adapta a este retângulo), restam-lhes – cada dia, cada semana, cada ano – poucos lazeres; por a escola os ter mantido ignorantes, não desconfiam da vida sedentária; e, por terem entrado na sociedade de consumo de maneira abrupta (após o retardamento do Estado Novo), sobrevalorizam o automóvel. Mesmo os agricultores são barrigudos pois o esforço físico simboliza misérias que os avós conheceram e às quais eles escaparam; é preciso um milagre da Virgem para os pôr a caminhar. Por consequência, sem treino algum na marcha, quando partem de Braga, da Guarda, de Salvaterra, sofrem torturas que justificam não só o transporte da bagagem em carros de apoio mas até o acompanhamento com equipas médicas.

Se Fátima é – sem dúvida nenhuma – um espaço de fé, não podemos dizer que Santiago se tornou turístico, porquanto as motivações religiosas também aqui conduzem, se bem que integradas num conjunto diverso e mesmo progressivo; há quem defina o Caminho Francês (entre trinta e sessenta dias de caminhada consoante os pontos mais frequentes de partida, Saint-Jean-Pied-de-Port e Le Puy-en-Velay) como uma metarmorfose: parte-se caminhante, chega-se peregrino.

Duvido todavia que a transformação perdure quando a maioria regressar à vida anterior. Aqui o andarilho avança num mundo paralelo, com outros ritmos, valores, obrigações, prioridades, o que lhe revela uma parte de si que a vida quotidiana – pobre por ser repetitiva – tem escondido, regressará porém a casa, onde tudo e todos se coligarão para o reinstalar nos carris e lhe impor papéis: pai, filho, marido, colega… O Caminho de Santiago ficará todavia na memória como uma aventura que o tornou maior. (Já não é pouco e pode, a qualquer altura, desencadear outras metamorfoses.)

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