TODAS AS AUSTERIDADES NOS LEVAM A SPEENHAMLAND* – ORGANIZAÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

Selecção de textos, tradução, organização e nota introdutória por Júlio Marques Mota

PARTE II
(continuação do domingo, 7 de Novembro)

Todas as austeridades nos levam a Speenhamland

JEAN-BAPTISTE BERSAC

Aproveito esta nova informação para revisitar uma das afirmações do meu livro que pode parecer à primeira vista especialmente ousada [1]:

O sistema ineficaz, porque complexo e administrativamente pesado, ajudas diversas e variadas, combinado com a obsessão pela austeridade, conduz-nos lenta mas seguramente  para um novo Speenhamland. […] os indivíduos ver-se-iam incapazes de poder existir economicamente fora do Estado.

Lembremo-nos que Speenhamland era um sistema de assistência social destinado aos mais pobres de todos, para não dizer, destinado aos miseráveis, criado na viragem do século XVIII para o século XIX. Este sistema foi atacado pelos liberais como uma espécie de heresia relativamente ao mercado e é verdade que os assalariados miseráveis subsidiados faziam concorrência desleal aos trabalhadores normais que deviam por sua vez baixar os seus salários e cair na pobreza e no sistema de assistência social. Assim, para evitar criar um défice público em nome da preservação do livre mercado [do trabalho], evitando ao mesmo tempo os efeitos mais desastrosos da precarização da população, este tipo de sistema resultou numa sovietização crescente da economia, paradoxalmente!

Ora, ainda muito recentemente li um bom relatório, Fast Food, Poverty Wages, do Centro de Trabalho da Universidade de Berkeley publicado em 15 de Outubro, e sobre estas questões. Deste relatório aqui vos deixamos alguns dos melhores trechos por nós traduzidos:

 52 por cento das famílias dos trabalhadores em primeira linha na restauração rápida fazem parte  de um ou mais programas públicos de assistência, em comparação com 25% de todos os trabalhadores. […]

 o custo da assistência pública às famílias dos trabalhadores na indústria de restauração rápida é quase 7 mil milhões de dólares por ano. […]

 devido aos seus baixos rendimentos as famílias dos trabalhadores da restauração rápida recebem uma média anual em pagamentos cerca de US $ 1,04 mil milhões e 1,91 mil milhões de créditos de imposto sobre o rendimento

 As pessoas a trabalhar na restauração rápida vivem mais frequentemente na pobreza, ou quase. Uma família em cada cinco com um membro a trabalhar  na restauração rápida tem rendimentos abaixo do limiar de pobreza e 43% têm rendimentos até ao dobro do rendimento da linha de pobreza nos Estados Unidos.

 Mesmo a trabalhar em tempo integral não são suficientes para compensar os salários baixos. As famílias de mais de metade dos trabalhadores da restauração rápida a trabalharem 40 horas ou mais fazem parte de programas de assistência pública.

 […]

Após cinco anos de baixa, o crescimento do emprego está lentamente a voltar nos Estados Unidos. No entanto, os novos postos de trabalho são muitas vezes substitutos inadequados para aqueles que foram recentemente perdidos. Os empregos da classe média são responsáveis por 60% da perda de postos de trabalho entre 2007 e 2009, mas representam apenas 20 por cento do aumento do emprego pós-recessão. Estes números indicam que os empregos de baixos salários são a parte mais forte na evolução do emprego, ao invés de serem um suplemento apenas, da retoma. Uma análise recente do National Employment Law Project mostra que os postos de trabalho de baixos salários representam quase três empregos em cada cinco empregos, durante os três primeiros anos de recuperação económica.

O resultado, como o resume muito bem Jack Temple, analista para o National Employment Law Project, : “que importa se comprarmos ou trabalharmos no McDonalds ou não, o modelo de baixos salários é oneroso para toda a gente. As empresas… fazem, sobretudo, incidir uma parcela dos seus custos sobre os contribuintes. »

A austeridade é implacável: ela limita ou raciona a quantidade de moeda na economia. Quanto mais se diminui a quantidade de dinheiro, mais se deve dividir  a moeda restante pela população, que acabará  por ficar na miséria. Miséria, tanto dos empregados do sector privado que supostamente se considerariam estarem protegidos por esta austeridade como miséria igualmente do pensamento liberal cujo prestígio perde muita importância ao ver-se o sector privado como muito dependente dos subsídios do Estado, pensamento liberal quem que é então tentado a questionar até mesmo  estas últimas redes de segurança e assim se  afundar ainda mais no erro.

Quando se escolhe a austeridade, todos os caminhos levam a Speenhamland.

Na Europa, os Estados estão super-endividados. As dívidas dos Estados europeus formam uma gigantesca bolha que vai estourar em breve.

E a dívida privada ?

O que é que se passa com a dívida privada ?

Na Europa, as famílias estão hiper-endividadas, as empresas estão híper-endividadas e os bancos estão falidos.

Sobre a dívida das famílias e da dívida das empresas, o Luxemburgo ganhou o Campeonato da Europa de dívida privada.

A Irlanda ganhou a medalha de prata.

Chipre ganhou a medalha de bronze.

A França termina em 14ºlugar.

Estas dívidas privadas formam uma bolha gigante, ainda uma mais, que em breve vai estourar.

Desde há vários anos, a economia dos países europeus assenta na criação de… dívida.

Quando as bolhas estoirarem, os países europeus vão ser vítimas de um colapso económico e financeiro.

1-  Medalha de ouro: Luxemburgo: dívida privada de 317,4 % do  PIB (em 2006, era somente de 134,7 % do PIB).

2- Medalha de prata: Irlanda: dívida privada de 306,5 % do PIB (em 2001, era somente de 154,7 % do PIB).

3- Medalha de bronze: Chipre, em que a dívida privada é de 296,4 % do PIB (em 1999, era somente de 158,6 % do PIB).

4- Dinamarca : 238,9 % do PIB.

5- Portugal: 225 % do PIB.

6- Pays-Baixos: 221 % do PIB.

7- Suécia: 214,2 % do PIB.

8- Espanha: 195,6 % do PIB.

9- Reino Unido: 181,4 % do PIB.

10- Finlândia: 160,5 % do PIB.

11- Malta: 155,4 % do PIB.

12- Áustria: 147,5 % do PIB.

13- Bélgica : 146,4 % do PIB.

14- França : 140,6 % do PIB (em 1999, era somente de 95,8 % do PIB).

Fonte: Eurostat.

Desemprego em Setembro de 2013:

Grécia : 27,6 % de desemprego.

57,3 % de desemprego nos jovens com menos de 25 anos.

Espanha : 26,6 % de desemprego.

56,5 % de desemprego nos jovens com menos de 25 anos.

Croácia : 17,2 % de desemprego.

52,8 % de desemprego nos jovens.

Chipre : 17,1 % de desemprego

13,9 % de desemprego nos jovens.

Portugal : 16,3 % de desemprego.

36,9 % de desemprego nos jovens.

Eslováquia : 14 % de desemprego.

31,1 % de desemprego nos jovens.

Irlanda : 13,6 % de desemprego.

28 % de desemprego nos jovens.

Itália : 12,5 % de desemprego.

40,4 % de desemprego nos jovens.

JEAN-BAPTISTE BERSAC,  Toutes les austérités mènent à Speenhamland Texto disponível no site Frapper monnaie, cujo endereço é: frappermonnaie.wordpress.com/

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[1]  JEAN-BAPTISTE BERSAC, Devises, l’Irresistible Emergence de la Monnaie, Setembro de 2013,

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Para ler a parte I deste trabalho, publicada em A Viagem dos Argonautas domingo passado, dia 8 de Novembro, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/08/todas-as-austeridades-nos-levam-a-speenhamland-organizacao-de-julio-marques-mota/

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Nota de A Viagem dos Argonautas:

* Sobre as leis de Speenhamland, introduzidas em Inglaterra em 1795, veja-se:

http://eoinhiggins.blogspot.pt/2010/02/karl-polanyi-speenhamland-and-future-of.html

http://www.victorianweb.org/history/poorlaw/speen.html

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