Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 148 – por Manuela Degerine

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Música de raparigas

Começo a descer na direção de Arcade. Tenho à esquerda, lá em baixo, a ria de Vigo e, para além dela, as serras verdes: uma paisagem muito bonita com os raios de sol trespassando a bruma.

As setas amarelas vão na direção das hortas (musgo, líquen, sedum florido e diversas plantas suculentas escondem as pedras dos muros), prosseguem pela “Fonte da Lavandeira”, atravessam uma zona de casas e quintais; surge um coelho no meio da erva. Sento-me a descansar, chegam Mika e Franz, este inquire se passamos junto de algum café, lembro-lhe as ostras, especialidade arcadiana; mais adiante vejo-os de facto numa esplanada.

Avisto o banco virado ao contrário (reservado aos que queiram sentar-se de costas para a paisagem) e casas coloridas do outro lado da ria. Atravesso o rio Verdugo pela Ponte Sampaio. Percorro a seguir, até Canicouva, uma zona muito bonita, descendo na direção de uma ribeira e campos cultivados, subindo por uma floresta de carvalhos e castanheiros; esta parte do percurso corresponde à via romana XIX (de Braga a Astorga).

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Há bancos após a ponte, sento-me à beira da água, como a salada de massa, trinco uma maçã: sinto-me intensamente feliz. Os eleitores de Frau Merkel passam. Bom caminho! Mais adiante param eles para descansar. Bom caminho! Pior do que ter uma tendinite é tê-la acompanhada: ele sente-se exausto, é natural, aguenta com duas mochilas, ela sente-se infeliz por lhe estragar o Caminho de Santiago.

Chega um alemão que vi no albergue, com o qual ainda não conversei. Tem sessenta e quatro anos. Canto-lhe:

– Will you still need me, will you still feed me, when I’m sixty-four?… Conheces?

– É mais da minha época do que da tua, embora eu fosse fã dos Stones, que eram rebeldes, não dos Beatles: que cantavam músicas de raparigas.

Dá uma gargalhada.

– Nunca reparaste?!

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