Érico Veríssimo e Fernando Lopes Graça – por Carlos Loures

Érico Veríssimo no ano de 1905 e Fernando Lopes Graça em 1906 nasceram em 17 de Dezembro.

De Érico Veríssimo, um gaúcho de Cruz Alta (Rio Grande do Sul), além da leitura de quase toda a sua obra, guardo duas recordações – ofereci um exemplar de Saga a uma jovem de Vigo com a qual me correspondia por volta de 1954 ou 1955. Decorre durante a Guerra Civil e não poupa os franquistas. Pois o pai, um senhor abastado, um galego traidor à pátria, mas fiel ao galego de Ferrol, obrigou a rapariga a devolver-me o livro e proibiu-a de me voltar a escrever.

A segunda recordação, remonta a 1959. Érico Veríssimo veio a Portugal e deu uma sessão de autógrafos na Livraria Portugal. Esperei pacientemente pela minha vez e quando ela chegou, um Veríssimo cansado, mas com um sorriso, perguntou-me o nome. E escreveu a dedicatória, na página de rosto de Olhai os Lírios do Campo – “Para o Carlos Flores…” Não tive coragem para pedir a emenda, pois quando dei pelo equívoco, o escritor estava já a escrever outra dedicatória. Em Tomar, ofereci o livro a  um amigo bibliógrafo e bibliómano  – dei-lhe um outro que comprara na Barateira, um exemplar de Os Emigrantes com uma dedicatória autógrafa de Ferreira de Castro para um qualquer indivíduo. Tão anónimo para mim como o Carlos Flores.

Foi em Tomar, terra natal de Fernando Lopes Graça, que, em Janeiro de 1964, fiz uma entrevista ao maestro, através do Dr. Antunes da Silva, que levou as perguntas e trouxe as respostas.  Destinava-se a ser publicada no suplemento cultural de O Templário, o “Labareda”, que, com o Manuel Simões e outros amigos, coordenava. Embora o maestro tenha desconversado comigo todo o tempo, teve um resultado interessante, pois foi abundantemente transcrita na imprensa diária, em resumos ou na íntegra em quase todos os jornais, e referida em revistas. Até o Diário de Luanda a reproduziu. Entre outras afirmações desassombradas, Lopes-Graça considerava os agrupamentos folclóricos, criados por António Ferro, o Goebbels português,, como «meras contrafacções» da cultura popular genuína. Foi uma bomba.

Anos depois, fui seu vizinho num bairro da Parede. Via-o frequentemente subir a estrada até ao Preventório (ele morava perto) e um dia parei o carro, saí e ofereci-me para o levar a casa. Muito amavelmente e agradecendo muito, recusou – «É a minha ginástica», justificou.

E, aqui temos uma composição sua, uma «Heróica» da minha preferência – «Jornada», com letra de José Gomes Ferreira e cantada por Luísa Basto.

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