(Conclusão)
Sob certo aspecto, acho até que na mera condição de leitora, mantenho-me bastante próxima do nosso autor, já que ele preferia se
reconhecer em primeiríssimo lugar como leitor, depois como poeta e, por último, como escritor de narrativas. Lembro, a propósito, esta confissão sua em poema: “outros que se vangloriem dos livros que escreveram, eu, orgulho-me dos livros que li”.[1] E ainda: “dediquei uma parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade menor é a poética, ou o que chamamos criação, que é uma mescla de esquecimento e de recordação do que lemos”.[2]
Mas, retomando o nosso tema, foi em Santana do Livramento que Borges viveu uma experiência nova e estranha e, sem dúvida, marcante – aqui ele assistiu pela primeira vez à morte de um homem em um café, com dois tiros, à queima-roupa. E para usar suas palavras: “lá vi matar a um homem perto de mim e esse fato me impressionou muito”.[3] Interessa, também, a viagem – travessia pelos campos do norte uruguaio, campos lindeiros e similares aos da campanha santanense – em razão das inesquecíveis impressões deixadas em sua pessoa e aludidas em alguns celebrados contos seus. Borges estava, na época em que viajou até a fronteira Rivera-Livramento, passando uma temporada de verão na casa de uma prima, Esther Haedo, na cidade de Salto, no Uruguai. Essa prima era casada com o escritor uruguaio Enrique Amorim. De lá, e sempre com Amorim, foi Borges até a estância do mesmo anfitrião, localizada no departamento (noção aproximada a de município) de Tacuarembó. Naquela região Borges viveu “experiências inéditas oferecidas pela gauchada: violência cotidiana, um agressivo primitivismo anacrônico” (…),[4] uma realidade, enfim, diferente da que conhecia. Da fazenda, rumaram então até as cidades gêmeas de Rivera e Santana do Livramento. Borges comenta, como se verá, a proximidade daqueles campos de Amorim com a fronteira do Brasil na qual não se distinguem os limites. Quanto às duas cidades mencionadas – singulares, indivisas física e naturalmente (como sabem os que aqui habitam) -, não há acidente geográfico algum que indique uma separação, apesar de pertencerem a dois países distintos. Essa particularidade foi destacada pelo próprio Borges em muitas ocasiões.
Sempre que possível, darei a palavra ao escritor, uma vez que ele foi pródigo em entrevistas e conversas com escritores, poetas e jornalistas do mundo todo, não constituindo exceção os fartos comentários a respeito da referida viagem. Além disso, não existe melhor maneira de evocar o acontecimento, e com maior fidelidade, do que ouvi-lo diretamente do autor sem esquecer, é claro, o prazer oferecido pela leitura de seu texto, mesmo que fragmentado. Somando-se aos depoimentos registrados pelo próprio Borges, possuo mais três que me foram transmitidos oralmente em momentos diversos, e serão comentados ao fim desta conversa.
A fronteira como revelação
Quando Jacques Leenhardt [5] reflete sobre o conceito de fronteira, ele lembra a definição da palavra latina limes – daí limite – e explica que ela é menos uma linha do que um espaço. A limes (o limite) designa um intervalo, uma borda, uma margem sem apropriação, embora possuindo todos os valores políticos, simbólicos e religiosos que, segundo ele, a figura de Hermes da mitologia grega resume. Hermes é o deus protetor das fronteiras, da passagem, da mobilidade, dos acordos, também ladrão de rebanhos e o que está ao lado dos heróis. É ainda, entre outros, um embrulhador de pistas e guia dos viajantes. No mesmo ensaio Leenhardt assinala a sutileza de Borges ao se referir à fronteira: “Quando Jorge Luis Borges tenta figurar a subversão de todos os lugares e de todas as linguagens inventando um universo desconhecido, Tlön, quando ele descreve esse universo paradoxal por meio de suas paisagens e de sua metafísica, ele diz do mensageiro pelo qual a cultura de Tlön foi conhecida uma só coisa: ‘ninguém sabia nada do mensageiro morto senão que vinha da fronteira. ’” Acrescenta – o pensador francês – que a língua desse planeta não pensa o mundo através de substantivos (essências), mas por meio de verbos. Assim é a estrutura do universo de Tlön: ações sem suporte essencial. E Leenhardt volta ao seu conceito de fronteira, às bordas, às franjas sem apropriação, para retomar a definição de limes como caminho entre dois territórios não pertencendo nem a um nem a outro e sim aos dois. É esse o espaço da fronteira – espaços sem substância que dependem (para existir) de um fazer ancorado em uma cultura: pastagens de animais (ovelhas ou vacas) nos campos limítrofes. E conclui: “O limes é esse espaço utópico inteiramente definido por uma prática e não por uma lei”.
Não é difícil imaginar o Borges – enquanto percorria aqueles vastos campos de Tacuarembó – ir sentindo a presença física da fronteira próxima e, ao mesmo tempo, ir enriquecendo-a de mil e uma conotações que poderiam ser simbolizadas na evocação do multifacetado deus grego. Este jovem deus, mensageiro de Zeus (o soberano dos deuses) é ainda apresentado como mestre das entradas e das técnicas de conjunção e de articulação, unindo a terra e o céu, os vivos e os mortos. Quando o nosso ficcionista-viajante lá divisou uma vida campeira diferente – estranha e selvagem – deixou-se seduzir pelo lugar. Vejamos o que Vázquez nos relata do que ele lhe contou:
Seduziram-no o lugar; a fronteira, local de passagem para quem trafica ou foge; a vida que levavam os gaúchos (pronunciando a palavra à antiga maneira oriental[6] quer dizer, à portuguesa) e as enchentes do rio Tacuarembó, que obrigava os passantes a aceitar a hospitalidade dos negociantes e dos donos de boliches (Vázquez, 1996, p.133).
Borges biográfico experimentou a vivência da fronteira não só na extensão da planície – horizontalmente vertiginosa – como nas coxilhas e também na cidade. E a partir dessa experiência vívida e vivida, transfigurou-a graças ao seu processo criativo em alguns contos magistrais. Neles, a realidade de fronteira, a nossa, há de persistir aludida e refletida para sempre – ao menos enquanto existirem leitores de Borges – em criações que levam a marca do gênio.
Desde aquele distante verão de 1934, a cidade de Rivera, como bem assinalou o escritor, segue se confundindo com a brasileira Santana do Livramento. A chamada linha divisória entre os dois países ainda continua sendo, no sentir dos habitantes fronteiriços, mais um espaço aberto do que uma linha de demarcação geopolítica de limites. Quanto aos costumes e usos do homem da nossa região, entrevistos pelo poeta cego, tanto no campo (nos “gaúchos barbudos e nas barbas descuidadas”) como na cidade (na morte violenta, despótica, impune do infeliz bêbado) – muita coisa mudou de lá para cá. O mundo globalizado do século XXI é definitivamente outro. Nós, definitivamente, outros. Mas a ideia de fronteira como “potencializadora de significados” permanece, assim ainda a vejo, tão inesgotável quanto no passado. Acho lícito pensar a fronteira como uma entidade mítica (essa, presumo, ser também a de Borges), tal qual a caatinga de Graciliano Ramos, o sertão de Guimarães Rosa e o pampa de Simões Lopes Neto.
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[1] Vázquez, 1996, p.132.
[1] Borges, 1985, p. 379.
[2] Borges, 1979, p. 22.
[3] Alifano, 1988, p. 164.
[4] Vázquez, 1996, p.132.
[5] Teórico e pesquisador da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/EHESS e do CNRS, em Paris. Martins, 2002, p. 29-30.
[6] Oriental, sinônimo de uruguaio, que pertence à República Oriental do Uruguai.

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