A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 56 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]Capítulo cinquenta e seis

A lição de Norberto, a primeira do semestre académico que o curso iria durar,  foi organizada em torno da proto-história de Moçambique, falando sobre as fronteiras dos actuais estados africanos, herdados de impérios coloniais europeus e desenhadas a régua e esquadro e ao sabor dos interesses, das quezílias, de apogeus e decadências das potências colonizadoras que ignoraram, desprezaram as nações pré-existentes, destruiram, sufocaram e amalgamaram etnias, aculturaram, violentaram a verdade histórica dos africanos e impuseram a sua realidad.  Após a dissertação, pediu a um dos alunos mais próximos da sua mesa que distribuísse cópias com a sinopse da lição e com uma breve bibliografia. A livraria que funcionava num dos pavilhões da universidade encarregar-se-ia de procurar obter as obras indicadas. E abriu um debate sobre o que dissera.

– Os europeus fizeram nas Américas o mesmo que em Áfric – disse um dos militares das primeiras filas.

– Nas Américas fizeram pior – disse um outro – destruíram civilizações, dizimaram os ameríndios e foram crioulos ambiciosos e com todos os vícios culturais europeus que proclamaram as independências. As Américas são uma Europa transplantada…

Norberto seguiu com interesse o debate entre os alunos. A discussão prosseguiu. O facto de serem militares, impedia ´que se atropelassem ou interrompessem. Enquanto escutava e respondia a uma ou outra pergunta, folheou a caderneta com os dados de cada um deles e encontrou a folha que procurava:

Afonso Nachawi, tenente-coronel, data e local de nascimento, estudos numa Missão Adventista… nenhuma referência à sua condição de agente da PIDE/DGS. Ergueu os olhos. Como que percebendo o que se passava na cabeça de Norberto, no rosto de Nachawi havia a sombra de um sorriso irónico.

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