Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 155

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Aquário

Musgos finos e aveludados, longas cabeleiras de musgo, bolas opulentas de musgo, tapetes de musgo felpudo, musgos discretos, musgos farfalhudos… Atravesso um bosque verde e a  própria água, pura e transparente, tem reflexos esverdeados. Os “espertos regatinhos” de Eça são aqui regatos travessos, regatos rebeldes, regatos insolentes que cruzem, acompanham e ocupam o caminho, obrigando os caminhantes a fugir para cima das pedras, para cima das paredes, para cima do que calha, a pendurar-se nos ramos e, o que é pior, em alguns sítios, a saltar por cima das águas. (Com este peso na mochila, no meu caso, vinte por cento do corpo, não poupa muito os ligamentos.)

Chego a uma passagem de nível, aproveito para me sentar, regalo-me com a primeira dose de arroz. Caminhei quase dez quilómetros.

Verifico se entrou água para dentro das botas – parece que não – quando as finlandesas aparecem. Por a primeira ser de uma região que fala sueco e a segunda viver na Suécia: comunicam em sueco. Explico-lhes o galaico-português. E despedimo-nos. (Eu demoro-me mais uns minutos a ouvir os pássaros, elas aceleram na direção do café mais próximo.)

Após Cancela encontro um homem idoso, corpo rijo e direito, a juntar ramos que acaba de podar numa árvore. Diz que vai uma vez por ano a Santiago – fica a sessenta quilómetros – e, para além disto, caminha muito a pé. Vê-se. Surge outro andarilho, este não traz mochila, pois vive em Pontevedra, vai hoje até Valga, o que representa metade do percurso, regressa a casa de autocarro e, no próximo fim de semana, caminha de Valga a Santiago: duas caminhadas de trinta e três quilómetros. Vemos Pieter em cima de umas pedras – a bronzear sem sol – e prosseguimos até Brialhos. Os campos estão alagados e os caminhos lamarosos, obrigando-nos a proezas de equilíbrio para passar sem enterrarmos não só as botas mas até as pernas, todavia o caminho serpenteia à beira de campos floridos, sob a vinha suspensa em espeques de granito… O prazer estético compensa todas as dificuldades.

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