ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE UMA CONFERÊNCIA A QUE ASSISTI NA CULTURGEST, de JÚLIO MARQUES MOTA

Parte III
(conclusão)

Do outro lado, como conferencista tivemos a apresentação feita por João Ferreira do Amaral, talvez através de uma quimera representada pelo desejo de saída gradualista do euro, uma saída com mecanismos de protecção da moeda nacional, como seria o controlo sobre a especulação e sobre os movimentos de capitais utilizado em Chipre pelo BCE e garantidos para o país que saísse do euro pelo BCE. Mas o problema não é apenas da moeda que saía do euro, da moeda nova que se estabeleceria, é também o problema das moedas que ficam, porque no seu esquema o euro permaneceria. Ora isso no contexto actual significaria dizer que as políticas de austeridade permaneceriam e contra isso que valeria a Portugal desvalorizar a sua moeda, já fora do euro? Nem para exportar mais sapatos quando os chineses decidirem começar a exportar sapatos, é apenas uma questão de tempo, ou queremos ignorar que já produzem calçado da mais alta qualidade? Que o diga a empresa Weston de França. Mas a desvalorização neste quadro de nada serviria. Veja-se o caso da libra. Desvaloriza e daí? Nada. Veja-se o caso da Índia com uma inserção destorcida no mercado mundial. Desvaloriza e daí? Nada, a não ser pedir apoio aos chineses que exigem como garantia que as grandes empresas indianas recorrem menos ao mercado mundial e passem nas suas compras a recorrer mais à China. Concorrência não falseada?

Mas a ideia central de João Ferreira do Amaral está tão correcta quanto a de Ramaux, exige é muito mais do que o que pressupõe João Ferreira do Amaral, exige talvez a reconfiguração do euro, com uma moeda central, o Euro como o conhecemos e as moedas nacionais, euros nacionais,  euros portugueses, espanhóis, italianos, alemães, mas exige muito mais ainda, exige os pressupostos de política comercial, industrial e agrícola bem diferentes do que tem sido feito, assim como uma política orçamental de que se reclamava Ventura Leite e sobretudo Ramaux. Sem expansão europeia, pode a libra saltear que não se sai na Inglaterra do quadro recessivo onde se encontra actualmente.

Por fim, uma nota sobre o que disse Jorge Reis Novais, a de que no quadro actual os partidos políticos nacionais estão vinculados a um programa que não é sujeito a escrutínio e que desse ponto de vista a Democracia está claramente em perigo. A Democracia é por definição dar ao povo pela idas às urnas a capacidade de escolha do seu projecto de vida, do seu projecto de futuro, não a imposição de terem que escolher o mesmo programa mas apresentado por cores partidárias diferentes, ou seja, para se o resultado final da folha de cálculo, previamente definido e estabelecido pelos outros. Se esta capacidade de opção real não existe, não existe então Democracia, é no mínimo o que se pode dizer. Nem é por acaso a sua posição quanto ao suporte teórico que preside às opções do Tribunal Constitucional, os principais universais que norteiam a Democracia e por isso há tanta gente que o quer abater.

Assisti a uma grande sessão de esclarecimento sobre a crise europeia claramente a deixar a ideia de que há muito a discutir entre todos aqueles que se querem portadores das ideais de futuro para o nosso país, a ideia de que há ainda muitas linhas de acção a precisar, porque estamos num domínio em que não se pode estar a actuar ao acaso. E essa tónica foi bem calibrada por João Cravinho assinalando a mistificação da evolução dos custos horários quando comparados com a Alemanha quando não somos concorrentes com a Alemanha, mas sim no quadro global da União Europeia com os salários da gama mais baixa dos baixos salários praticados na China, assinalando igualmente o perigo das grandes coligações entre gentes e partidos   que nada tem  a ver uns com os outros  e em nome de uma fachada para encobrir eventualmente um violento ataque a Democracia, a fazer lembrar Salazar e a União nacional ou ainda a fazer lembrar o fantasma que habita actualmente em Belém. .

A salientar ainda a falta de jovens entre tanta gente que havia na sala. Em tempos num ciclo de cinema passámos  um filme que tinha por título Welkome Europe que nos falava do degredo de milhares e milhares de jovens que deambulavam por essa Europa, tão jovens e já sem presente e sem futuro. Um filme cujo título se referia, por um lado,  a uma Europa do Kapital, a que no filme era mostrada contra a ideia de uma Europa que tinha estado na  cabeça de todos aqueles jovens,  uma Europa que não tínhamos, que dela muito tínhamos sonhado e que foi a base do projecto europeu  e esta, então, era a Europa imaginária que seria bem-vinda e pela qual ainda hoje nos batemos. Agora, sentimos que enquanto o “nosso bêbado” fugia para dentro de si-mesmo, destruindo-se, os nossos jovens querem fugir para fora, querem ser bem-vindos a uma Europa que não existe, enquanto a Europa que existe, a do  Welkome,  já nem os quer  e em que, portanto, estarão condenados a serem destruídos pela voragem de um sistema que se recusam a querer entender para o poderem combater, daí a notória ausência a que me refiro no Pequeno Auditório da Culturgest.

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Para ler a Parte II desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/20/algumas-reflexoes-sobre-uma-conferencia-a-que-assisti-na-culturgest-de-julio-marques-mota-2/

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