A ANÁLISE AMERICANA DA ECONOMIA A NÍVEL MUNDIAL (EXCERTOS) (1) – UMA SÍNTESE por JÚLIO MARQUES MOTA

A Análise Americana da Economia a nível mundial ( Excertos) [1]

PARTE VI

Análise individual das diversas economias

 Ásia

China

(continuação)

A apreciação do renminbi (RMB) é consistente com os objectivos da China em termos de reforma financeira e do reequilíbrio. Um RMB mais forte pode ajudar a apoiar o consumo interno, aumentando o poder de compra das famílias. Isto ajudaria a reduzir as distorções que promovem o investimento para a produção em bens comercializáveis, ao invés de produção orientada para o mercado interno. Ao reduzir a intervenção nos mercados cambiais e ao vir a permitir que o valor do RMB possa ser determinado sobretudo pela oferta e procura também daria às autoridades chinesas um maior controle sobre a criação de liquidez e sobre a política monetária interna, tornando-se mais fácil para as autoridades alcançar os seus objectivos de inflação e trabalhar de forma mais eficaz contra as potenciais bolhas de activos.

As autoridades chinesas têm assumido publicamente o compromisso quanto á reforma do mecanismo de taxa de câmbio. No encontro de Julho de 2013 citado acima,  a China comprometeu-se a continuar a reformar o seu mecanismo de taxa de câmbio e a aumentar a flexibilidade da taxa de câmbio do RMB, assim como  a deixar que o mercado desempenhe um papel mais fundamental na formação da taxa de câmbio. No dia 1 de Fevereiro de 2013 na reunião dos ministros das Finanças do G-20 e dos Governadores do Banco Central em Moscovo, a China juntou-se a outros membros do G-20 declarando empenhar-se em não actuar sobre a taxa de câmbio com finalidades de competitividade e reafirmou o seu empenho em se movimentar mais rapidamente em direcção a sistemas de taxa de câmbio mais determinados pelo mercado e a garantir uma flexibilidade na taxa de câmbio de modo a que esta reflicta os fundamentos subjacentes e se evitem  assim os desalinhamentos cambiais persistentes. A China também se comprometeu na Cimeira do G-20 em 2012 em Los Cabos, México, em  reduzir o ritmo de acumulação de reservas cambiais e em  aumentar a transparência da sua política de taxa de câmbio. No Congresso Nacional Popular em Março de 2013, a nova liderança da China, comprometeu-se em efectuar reformas constantemente para que a determinação das taxas de juros e da taxa de câmbio RMB estejam mais baseadas nos mercados do que o tem sido até agora. O Conselho de Estado reiterou estes compromissos quanto à reforma do sistema financeiro em maio de 2013, sublinhando que ― o regime de taxa de câmbio do RMB deve ser optimizado para deixar a oferta e a procura no mercado desempenhar um papel fundamental na formação da taxa de câmbio.

Os reguladores tomaram este ano mais medidas para afrouxar os extensivos mecanismos de controles de capital na China e para gradualmente libertarem os canais para os capitais transnacionais e para os investimento. Em Março, os reguladores anunciaram que o seu esquema RMB Qualified Foreign Institutional Investor (R-QFII)) – que inicialmente permitia que apenas as empresas com base em Hong Kong comprassem RMB em offshore e investissem nos mercados de valores mobiliários do continente – seria aberto para as empresas financeiras estrangeiras domiciliadas em Hong Kong, expandindo o programa para além das empresas chinesas pela primeira vez. Mais significativamente, as autoridades removeram as restrições na alocação de activos sob R-QFII, dando aos gestores maior flexibilidade para estabelecerem projectos e lançarem novos produtos em resposta à procura dos mercados. Em Julho, os reguladores aumentaram novamente a quantidade de moeda que os estrangeiros podem investir em acções da China e nos mercados obrigacionistas sob o programa QFII original, aumentando a quota de US $150 mil milhões. Também este ano, a China estabeleceu novos acordos de clearing sobre o RMB com Taiwan e Singapura e expandiu o esquema R-QFII para Singapura e Londres. Estas políticas representam passos no sentido de uma maior abertura do sector financeiro da China, embora ainda permaneçam em vigor restrições significativas.

Em Maio de 2013, o governo anunciou que irá publicar um plano operacional dentro de um ano para a liberalização das contas de capital, incluindo a criação de um sistema que permitirá aos investidores chineses do Continente investir no exterior. Finalmente, em Julho de 2013, o Conselho de Estado aprovou a criação da zona de livre-comércio de Shanghai (SFTZ). Esta SFTZ é esperado vir a oferecer um campo de testes para a reforma do sector financeiro, com planos para permitir testes de liberalização das taxas de juro, abertura de conta de capital, convertibilidade da moeda e menos barreiras de entrada para as instituições financeiras dentro da própria zona especial. Embora os detalhes da zona SFTZ estão ainda a ser esclarecidos, se a ideia for bem-sucedida, o programa poderia acelerar as reformas financeiras da China e fornecer um modelo para as políticas que poderiam eventualmente ser desenvolvidas e aplicadas em todo o país.

Aumentando a margem de negociação do RMB [ o intervalo de variação do RMB entre um valor máximo e um mínimo ] seria um sinal importante do empenho da China em fazer reformas do seu sistema cambial com maior peso para os mecanismos de mercado. As autoridades chinesas indicaram publicamente a sua intenção de alargar o intervalo de variação do RMB (+ /-1% ) contra o dólar, no futuro próximo. As condições para um tal movimento melhoraram com a estabilização dos mercados globais. Uma banda mais larga deve promover os fluxos de divisas e de capitais nos dois sentidos, o que as autoridades chinesas têm desejado desde há muito tempo. Por outro lado, se a China não permite maior flexibilidade e se as expectativas de estabilidade não sejam autorizadas a desenvolverem-se, então, será difícil à China estimular as empresas chinesas para se desenvolverem e aumentarem a sua utilização de instrumentos de cobertura de risco. Uma banda mais larga que permite maiores flutuações ao longo do dia em torno do valor fixado permitiria que a taxa spot reflectisse melhor as condições de mercado. Além disso, permitindo que o mercado encontre a sua posição de equilíbrio dentro de uma faixa mais ampla sem as actuais intervenções  ajudaria a China a realizar a sua transição para uma maior flexibilidade.

O RMB em termos de taxa de câmbio efectiva tem estado a apreciar-se numa base ponderada  pelos pesos relativos do comércio de comércio, mas não tão rapidamente e nem de tanto quanto o que seria necessário e retomaram-se as intervenções nos mercados cambiais. A apreciação do RMB é não só boa para a economia dos EUA, mas é igualmente boa para a economias da China e de modo geral também para as restantes economias da Ásia. A China tem permitido que a taxa de câmbio do RMB se ajuste  parcialmente ao longo dos últimos anos. Isto é reflectido na valorização real do RMB e no declínio do excedente da balança corrente. Até meados de Outubro de 2013, o RMB apreciou-se e num total de 12 por cento contra o dólar e de 16 por cento numa base real, ajustado pela inflação desde Junho de 2010, quando a China se desligou da taxa de câmbio ancorada contra o valor do dólar e apreciou-se cerca de 45 por cento em termos ajustados pela inflação, desde que a China deu início à sua reforma monetária em 2005. A taxa de câmbio efectiva real da China (REER) – uma medida da sua competitividade-custo total em relação aos seus parceiros comerciais – valorizou-se cerca de 15% desde Junho de 2010 e de 38% desde Julho de 2005.

Nos primeiros nove meses do ano, o RMB apreciou-se 6,3 por cento em termos de taxa de câmbio efectiva nominal e de 6,6 em termos de taxa de câmbio efectiva real, tendo em conta as diferenças na inflação. Isto, numa parte considerável, reflecte a depreciação do iéne contra o dólar e a fraqueza de muitas moedas dos mercados emergentes O ritmo de apreciação nominal de RMB (2,2% ano até à data de de 18 de Outubro de 2013) tem sido mais modesto, com muito pouca apreciação ao longo de vários meses. Assim, a estabilidade relativa do RMB nos últimos meses está em nítido contraste com a depreciação de muitas outras moedas dos mercados emergentes neste ano, e o RMB apreciou-se  numa base ampla de moedas em 2013.

A partir do final de 2011 e do princípio de 2012, a intervenção oficial da China baixou uma vez que as preocupações  relativas a uma redução do ritmo de crescimento  na China  e a crise financeira na zona euro fizeram baixar a entrada de capitais na China.. Como estas preocupações a diminuirem no final de 2012 e no primeiro semestre de 2013, a intervenção oficial foi retomada e em grande escala. Os dados oficiais chineses mostram que as instituições financeiras chinesas e o PBOC compraram colectivamente um valor recorde de US $110 mil milhões em divisas somente em  ambos os meses, Janeiro e em Setembro de 2013, mais do que os valores acumulados ao longo de todo o ano de 2012. Também se adicionaram cerca de  US $53 mil milhões no PBOC ― para além de outros activos estrangeiros, o que pode ser visto como outra forma de intervenção. A China desacelerou o ritmo de acumulação de reservas para US $47 mil milhões no 2 º trimestre deste ano, com a grande maioria de intervenção a ter estado concentrada no mês de Abril.

análise americana - VII

São vários os factores que contribuíram para a desaceleração nos fluxos de divisas no segundo trimestre: (1) o governo começou a tornar mais apertada a malha de controlo quando à falsa facturação do comércio utilizada para canalizar moeda para o exterior com a finalidade de especulação e os reguladores introduziram novas regras para definir os requisitos mínimos sobre as posições cambiais líquidas em aberto dos bancos nacionais; (2) continuação dos sinais de fraqueza em indicadores de actividade da China durante o verão o que moderou as expectativas de que o crescimento do PIB poderia voltar a subir no final do ano; e (3) durante várias semanas no mês de Junho,  o PBOC estabeleceu e de forma diária uma mais forte fixação das taxas, apesar de um mais fraco volume de transacções cambiais, criando mais espaço disponível na parte superior da banda cambial e reduzindo a necessidade de intervenção cambial. [Repare-se que neste caso a taxa verificada esteve quase sempre no limite da apreciação consentida pelo governo de Pequim]. Os dados completos para o terceiro trimestre ainda não estão disponíveis, mas os dados quanto a reservas cambiais da China sugerem que as autoridades têm estado muito envolvidas com intervenção significativa no terceiro trimestre. O aumento trimestral de US $166 mil milhões foi um aumento de três vezes superior ao do segundo trimestre e o maior em mais de dois anos. Depois do ajustamento e por efeitos da valorização a intervenção da China no 3º trimestre foi provavelmente bem mais de US $100 mil milhões. A quebra mensal das reservas do PBOC no 3º trimestre sugere que a China interveio mais fortemente em Setembro, com as reservas a aumentarem aproximadamente de US $110 mil milhões conforme mencionado acima.

(continua)

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[1] Excertos de:  Report to Congress on International Economic and Exchange Rate Policies; U.S. Department of the Treasury, Office of International Affairs, October 30, 2013

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Para ler a Parte V desta síntese de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/21/a-analise-americana-da-economia-a-nivel-mundial-excertos-1-uma-sintese-por-julio-marques-mota-5/?preview=true

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