POESIA AO AMANHECER – 347 – por Manuel Simões

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MIA COUTO

( 1955 )

CORES DE PARTO

O que eu vi,

à nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,

a desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego

antes de, em linha e cor,

o mundo se revelar.

O que depois vi,

ainda sem saber que via,

foram as mãos.

Parteiros gestos

me ensinaram quanto,

das mãos,

a vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram,

assim, o meu segundo ventre.

Luz e mãos

moldaram a impossível fronteira

entre oceano e ventre.

Luz e mãos

me consolaram

da incurável solidão de ter nascido.

(de “Tradutor de Chuvas”)

Pseudónimo de António Emílio Leite Couto. Biólogo e escritor moçambicano, prémio Camões 2013. Mais conhecido como prosador, estreou-se literariamente como poeta: “”Raiz de Orvalho” (1983). Publicou ainda “Raiz de Orvalho e outros poemas” (1999), “Mar me quer” (2000) e “Tradutor de Chuvas” (2011, 2ª ed., 2013).

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