Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos – 2 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os temas da Ronda dos Quatro Caminhos, há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2013/12/celebrando-ronda-dos-quatro-caminhos.html e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Cravo Roxo

Letra e música: Popular (Idanha-a-Nova, Beira Baixa)

Recolha: Vítor Reino

Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP “Ronda dos Quatro Caminhos”, Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)

[instrumental]

Cravo roxo à janela

É sinal de casamento.

Menina, recolha o cravo,

Ó ai, que o casar inda tem tempo!

Cravo roxo ama, ama,

Ó jasmim adora, adora!

Rosa branca brumelhinha,

Ó ai, se tens pena chora, chora!

Cravo roxo, sentimento,

Que eu bem sentida estou;

Por amar quem me não ama,

Ó ai, querer bem a quem me deixou.

Tenho à minha janela

O que tu não tens à tua:

Cravo roxo salpicado

Ó ai, que dá cheiro a toda a rua.

[instrumental]

* Instrumentos: fole, duas violas, dois bandolins, flauta, dois adufes e castanholas

Nota: «O adufe representa um elemento musical de importância preponderante no folclore de toda a Beira Baixa e, muito particularmente, da sua faixa raiana, onde as peculiares cantigas outrora bailadas no terreiro, tão vibrantes e expressivas, propiciavam um momento privilegiado de diversão e aproximação entre os dois sexos.

O adufe possui, de facto, potencialidades de fraseado rítmico e de cambiantes sonoras praticamente inesgotáveis, o que não se compadece, naturalmente, com a sua generalizada utilização por executantes improvisados, que o destituem, inevitavelmente, de uma grande parte dos seus reais e vastos recursos. Tal circunstância levou-nos a convidar duas exímias tocadoras monsantinas – que o sabem manusear como ninguém, com mão ligeira e pancada certa – no intuito de dar ao presente trabalho uma dimensão de autenticidade musical e documental que consideramos indispensável.

Procurámos encontrar uma sonoridade adequada à canção, realçando a entrada vibrante dos adufes através de uma pequena introdução medievalizante, com base num instrumento muito interessante praticamente desconhecido entre nós, uma variedade de fole por vezes designada por concertina de palhaço.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)

O Segador

Letra: Popular (versão abreviada do espécime publicado no “Romanceiro” de Almeida Garrett, 1843)

Música: Vítor Reino

Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP “Ronda dos Quatro Caminhos”, Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)

[instrumental]

O imperador de Roma

Tem uma filha bastarda.

Pedem-lha condes, senhores,

Ela a todos punha tacha…

Por manhã de São João,

Manhã de doce alvorada,

Viu andar três segadores

Fazendo sua segada.

– «Vês, aia, aquele ceifeiro

Que anda naquela segada?

Vai-me o chamar em segredo,

Que ninguém não saiba nada.»

– «Senhora, que me queredes,

Pois venho à vossa chamada?»

– «Quero saber se te atreves

A fazer minha segada!»

– «Atrever me atrevo a tudo,

Trabalho não me acobarda.

Dizei vós, minha senhora,

Onde é a vossa segada.»

– «Não é no monte ou no vale,

No baldio ou na coutada…

Segador, é nos meus braços,

Que de ti estou namorada.»

Não quis senhores nem condes,

Homens de capa ou de espada,

Senão só o segador

Que andava em sua segada.

Podia ser um porqueiro

Que a deixasse difamada…

Saiu-lhe um duque reinante,

Senhor de alta nomeada.

* Instrumentos: duas violas, bandolim, banjola, duas flautas, violino e pandeireta

Nota: «Ao folhear, despreocupadamente, o “Romanceiro” de Almeida Garrett, deparámos com um belíssimo espécime, autêntica relíquia da nossa poesia popular… As palavras, singelas e vibrantes como suaves e límpidas cascatas de som, impuseram-se insinuantemente ao nosso ouvido e fizeram brotar, naturalmente e sem esforço, a melodia entre regional e palaciana que, modestamente, julgamos ajustar-se ao velho romance.

Tivemos ensejo de escutar variantes do mesmo em Trás-os-Montes, mas somente sob a forma de cantiga de segada, sem música própria, o que nos decidiu a incluir a presente versão. Demos-lhe propositadamente um ambiente de tipo palaciano, em que a voz do narrador nos transporta aos séculos recuados, trazendo-nos ecos longínquos de trovadores e menestréis, velhos cantadores de muitas e belas histórias…» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)

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