DE LONDRES MANDARAM-ME UM GRANDE POSTAL ILUSTRADO – por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE III
(CONTINUAÇÃO)

Abandonemos o caso inglês, e procuremos de forma sucinta alguns dados equivalentes para os Estados Unidos.

Já no âmbito dos EUA

Figura A – Sintomas do desemprego entre recessões

Ça ira - VI

O gráfico não é contudo tão eficaz como o desejaríamos, a expressar um quadro da variação do desemprego exactamente porque as diferenças, entre o valor de partida de partida e a do ponto baixo da recessão são muito elevadas, de recessão para recessão, eficácia explicativa que na verdade, já poderemos ter no gráfico seguinte. Curioso, quando o gráfico é reorientado na direcção da comparação entre o crescimento do emprego a partir do início da retoma económica ao invés de tomar como referência o valor de pico antes da crise estalar. Ao contrário da comparação de recessão que é mais frequentemente construída, a análise facultada na Figura A, a Figura B abaixo permite uma comparação do desempenho da economia em fase de recuperação após cada recessão.

Figura B – Desempenho da economia em fase de recuperação após as recessões.

Ça ira - VII

O ponto de referência é agora não o valor de pico que antecede a queda mas sim o valor que assume a variável económica em questão quando começa a retoma. No quadro agora exposto, este valor é dado pela linha a ponteado. À esquerda dessa linha, marcada em abcissa com o valor zero temos a evolução da baixa de emprego e como é imediato e assustadoramente claro a queda é abrupta, portanto, com a crise actual veja-se a inclinação da linha à esquerda do ponto Zero. Tudo isso a mostrar o flagelo da actual recessão bem mais grave que todas as outras e contra a qual se quer responder com menos instrumentos em política económica e social, a pressão dos Republicanos para conter o défice, neste contexto, ou a agressividade de Berlim em impor as políticas de austeridade por toda a Europa. Inversamente à direita deste ponto e compare-se com gráfico anterior, inclusive. O emprego cresce e a uma taxa que actualmente não é tão fraca como pode parecer no gráfico anterior a este; é muito claramente paralelo e com um ligeiro atraso relativamente ao crescimento da recessão de 1990 e é ainda mais rápido que o relançamento da economia feito em 2001. De sublinhar ainda que o crescimento do emprego é relativamente mais elevado se considerarmos somente o crescimento deste no sector privado, devido à perda de empregos do sector público, facto sem precedentes nesta retoma e que se deve à pressão dos republicanos sobre a Administração Obama.

Este gráfico sublinha ainda a grande diferença entre a dimensão e a severidade da actual recessão contra todas as outras, e portanto, a exigir políticas de relançamento bem mais fortes que nas crises anteriores. Estes resultados recusam as reclamações sucessivamente feitas contra a Administração Obama de que o volume de emprego está em vias de retroceder devido as regulamentações impostas pela Administração americana, à incerteza das empresas quanto à reforma fiscal ou devido aos custos da protecção na saúde imposto pela Administração contra ventos e marés. Se estes argumentos fossem verdadeiros dever-se-ia conhecer um crescimento do emprego muito mais lento, particularmente quando comparando com o relançamento da economia em 2001, aquando estas reclamações não se tinham ouvido.

Naturalmente, isto não deixa de modo algum os responsáveis políticos de hoje fora da pressão da crise. O problema chave na economia actual é a reduzida procura de bens e serviços o que, por seu lado, se traduz numa baixa procura de mão-de-obra a empregar. O mercado de trabalho do país permanece espantosamente fraco e o ritmo actual do crescimento do emprego condenará superfluamente milhões de americanos ao desemprego durante os próximos anos. Mesmo se o emprego crescer continuadamente como no mês Dezembro de 2012 (+ 200.000, considerado um valor muito alto), será necessário que se mantenha assim até 2019 para que assim se possa atingir novamente a meta do pleno emprego. As políticas agressivas para se criar emprego – especialmente os necessários e substanciais estímulos orçamentais para dinamizar a procura- precisam de ser consideradas como uma autêntica prioridade nacional. Esta é a linha que os Republicanos têm sucessivamente cortado, impedindo que Obama realize as suas promessas eleitorais de uma resposta mais eficaz à crise assente na dinâmica interna da economia americana. E curiosamente o oposto a esta mesma linha é o que inacreditavelmente, e numa espécie de suicídio colectivo, se tem estado a impor por toda a Europa, a partir de Bruxelas, de Berlim, de Frankfurt, enquanto que Christine Lagarde é apenas uma figura de cartaz.

(continua)

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Para ler a parte II desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/01/01/de-londres-mandaram-me-um-grande-postal-ilustrado-por-julio-marques-mota-2/

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