GIRO DO HORIZONTE – 40 ANOS – por Pedro de Pezarat Correia

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(Excertos e adaptação do texto de abertura d’O Referencial nº 111, revista da Associação 25 de Abril)

 

Quatro décadas já passaram desde o dia em que largas dezenas de capitães e subalternos do Exército Português se juntaram no Monte Sobral e daí partiram para um processo conspirativo que, sete meses e meio depois, culminaria com a liberdade em Portugal e, através dela, abriria as portas à libertação porque os povos das colónias vinham lutando.

Movimento corporativo, dizem algumas vozes com intenção depreciativa. O que só em parte, numa pequena parte, é verdadeiro, pois se é certo que houve naquela reunião objetivos imediatos de ordem profissional, no fundo grande parte daqueles jovens militares já estava politicamente motivada. O movimento inscrevia-se no quadro conspirativo que se iniciara com a contestação ao Congresso dos Combatentes, três meses antes e essa evidenciara visivelmente, não apenas um conteúdo político, como os primeiros sintomas da denúncia da guerra colonial. A verdade é que a dinâmica do Monte Sobral rapidamente se estendeu às colónias e, em Portugal, na Guiné, em Angola, em Moçambique, nas primeiras reuniões que se seguiram e sem que houvesse contatos ou posições concertadas, surgiram intervenções que iniludivelmente apelavam à politização do movimento contra a ditadura, sem a qual o protesto dos capitães careceria de acolhimento entre os portugueses. Aliás na Guiné o movimento até já se encontrava mais avançado, estruturado e evidenciando uma dinâmica de politização das reivindicações nas reuniões que se vinham efetuando desde Agosto.

Premonitoriamente assim o entendeu o então rendeiro do Monte Sobral, Celestino Garcia, quando, perante os subterfúgios discursivos com que era sondado para a cedência das instalações, despachou com a frontalidade de bom alentejano: «Se querem o monte para conspirarem e fazerem uma revolução, empresto já». Era.

 Aí se reuniram de novo os capitães que o foram, já não na juventude dos vinte e trinta anos, mas na “juventude” dos sessenta e setenta, porque continuam jovens no seu espírito, no seu inconformismo e na sua determinação de continuarem a lutar pelo futuro de um Portugal digno e justo. Se há quarenta anos era preciso pôr de pé uma liberdade com substância, hoje é preciso mantê-la de pé e lutar contra o seu esvaziamento.

 Por isso aí se falou da preservação do Estado Social, da Independência Nacional e, com um e outra relacionados, lançou-se o Manifesto da Água, para defesa de um património que é de todos e cuja alienação configura os contornos de uma traição.

 Em Monte Sobral evocaram-se sentidamente muitos dos camaradas que estiveram presentes em 9 de Setembro de 1973 mas que já não o puderam estar em 9 de Setembro de 2013.

7 Janeiro 2014

 

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