EDITORIAL – Literatura vs paradigma tecnológico

Imagem2No próximo fim de semana, no Centro Cultural de Belém, realiza-se o “I Encontro Literatura: Presente, Futuro”. Os objectivos gerais definidos pelos professores Helena Buescu e António Carlos Cortez, começam por dizer A literatura, «linguagem carregada de sentido», na conhecida definição de Ezra Pound, merece, nos tempos que correm, renovadas interrogações. Seja quanto à sua missão social, seja quanto à sua dimensão estética, não sofre contestação que é através da literatura que a língua portuguesa atinge a sua máxima realização. Pensar a literatura num tempo em que impera o paradigma tecnológico significa, sobretudo, questionar que literatura é hoje feita para as crianças e adolescentes e qual a responsabilidade de pais, educadores, professores, escritores, editores e livreiros.

Nas quatro sessões em que o Encontro se divide, intervêm figuras de inquestionável valor intelectual que vão debater uma problemática onde se inserem perguntas tais como: – Quais as relações entre o público-alvo e a necessária missão educativa dos livros? Que responsabilidades devem ser atribuídas a editores, escritores e professores/escola? Que tipo de literatura fomenta a leitura crítica, exigente, responsável? Que papel cabe ao jornalismo e à Universidade?

Tudo muito bem. Só não se percebe por que motivo Nuno Crato é convidado. para quê convidar um ministro de um governo que tem provado o seu desprezo pela cultura, um homem que se julgava ser um intelectual honesto e coerente, e que se revelou um serventuário obediente de «interesses» que nada têm a ver com o superior interesse nacional? A presença de Nuno Crato é, por si só, a garantia de que vamos ter uma mera exibição de sapiências e que a política cultural continuará subordinada à «ditadura do  proveito, ao utilitarismo da educação e ao pouco interesse pelos bens do espírito», como diz num ensaio que acaba de ser publicado  Nuccio Ordine, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria.

Pede-se a Cristiano Ronaldo que assuma a atitude de recusar a distinção que o presidente da República lhe quer outorgar. Como se pode exigir coerência política a um jogador de futebol, quando pessoas de grande envergadura intelectual, como é o caso de algumas das que intervêm no encontro dos dias 11 e 12 no CCB, não conseguem evitar a presença de um ministro de um governo iníquo e, ele próprio, um instrumento dos que entendem que a cultura é inútil?

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