POESIA AO AMANHECER – 360 – por Manuel Simões

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GABRIEL MARIANO

 ( 1928 – 2002 )

            VELA DO EXÍLIO

            Acendi hoje uma vela

            de estearina na fina

            mesinha onde escrevo.

            Enquanto ela me ardia

            da chama para os meus olhos

            velhas lembranças seguiam.

            E súbito sobre a parede

            da velha casa onde moro

            o mapa árido e breve

            das ilhas do Caboverde.

 

             Que vento não vem ou se agita

            no barco em forma de vela

            por dentro da casa fechada!

            Que voz materna no écran

            da ilha difusa difunde

            meu nome em projecto?

 

            Acendi hoje uma vela.

            E enquanto me ela queimava

            por sobre a mesa pessoas

            vivas e mortas passavam.

 

            Vela do exílio acendida

            na noite de Moçambique:

            pesado, inútil veleiro.

            Vela do exílio, meu filho

            com apenas um sopro apagas

            a vela, o exílio não.

 

            (de “No Reino de Caliban”-1)

 Poeta, contista e ensaísta cabo-verdiano. Colaborou em “Claridade”, “Mensagem” (CEI). Figura em “Antologia da poesia negra de expressão portuguesa” (1958), “Mákua 2, antologia poética” (1963), “La poésie africaine d’expression portugaise” (1969), “Poesia africana di rivolta” (1969), “Afrikanski Lyrik” (1970). Obra poética: “12 poemas de circunstância” (1965), “Ladeira Grande” (antologia, 1993).

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