Ela entrou em casa bufando, sentindo as narinas se alargarem. Jogou a bolsa no sofá e voou para o closet. Tirou toda a roupa e só então acendeu a luz. Viu-se nua no espelho, que cobria uma das paredes laterais. Devia ter respondido àquela filha-da-puta. Não. Devia tê-la esganado.
Suspirou fundo antes de voltar, nua mesmo, pelo corredor. Um calor enorme; precisava beber alguma coisa. Encheu um copo com suco de pêssego. Devolveu o suco à jarra, bebeu meio copo d’água – toneladas de calorias a menos.
Chegou ao banheiro um pouco mais calma, entrou na ducha e deixou o jato forte massagear o corpo por vários minutos.
“Barriguda! Quase dois anos sem me ver e a primeira coisa que a cretina diz é que a minha barriga está grande! Na maior cara de pau, com aquele metro e meio e dez quilos de excesso.”
Voltou para o quarto enrolada na toalha, que deixou cair, discreto frio na espinha, no chão do closet. Tirou de uma prateleira a caixa de plástico onde guardava fotos antigas. Escolheu duas. A menor, 5×7, usada no primeiro passaporte. A maior, colorida, de corpo inteiro e biquíni, uma inscrição a lápis, quase ilegível, no verso: Ipanema, verão de 78. A frase teve o efeito de um soco e a fez desabar na pequena poltrona, encostada na parede oposta ao espelho. Mil novecentos e setenta e oito; há trinta anos e, como se não bastasse, século passado. Dos Beatles à explosão das torres gêmeas, tudo o que ela viu em quarenta e oito anos já era parte da História Geral das Civilizações.
Num impulso, se levantou. Pensando bem, melhor ter quarenta e oito anos no século vinte e um do que na Idade Média. Vantagens mil: lipoaspiração, plástica, silicone, botox. Você entra numa dessas clínicas encarquilhada feito a rainha-mãe e sai, só uns dias depois, devendo pouco à Afrodite. Maravilhas da medicina.
Prendeu as fotos na moldura do espelho, parou alguns segundos de frente para ele, de perfil, de costas. Quase um metro e setenta, menos de sessenta quilos. A nanica, para chegar a isso, só esticada numa daquelas máquinas de tortura medievais. Análise geral satisfatória. Nenhum sinal escandaloso de decadência.
Passou então aos detalhes. Cabelos. Como na foto, castanhos. Nada de fios brancos, de tinta. Molhados e despenteados como estavam, davam ao rosto um ar fresco, jovem. O rosto. Com certeza teria alguns problemas com ele. Olhou a foto do passaporte. Nenhuma ruga. Olhou-se no espelho. Não muito de perto pois teria que colocar os óculos e isso atrapalharia a avaliação. A meia distância.
Olheiras. Rugas de expressão na testa. Bochechas ainda no lugar, mas com tendência à queda. O rosto passou raspando. Começaria a se informar a respeito de um lifting.
Pescoço. Fantástico! Lisinho, como nas fotos. Pegou na prateleira um espelho menor e o segurou atrás da cabeça. Torceu o corpo para enquadrar a imagem de um espelho no outro e observar a nuca. Importante, para quem gosta de cabelos curtos. Perfeita! Tal perfeição provocou nela um sorriso. E uma olhada rápida nos dentes. Originais e bem tratados. Ainda que ao preço de pelo menos dois carros zero. Alargou o sorriso. Queria ver se a gorda teria coragem de fazer o que ela estava fazendo. Provavelmente tinha os dentes cheios de cáries, de tanto comer doces.
Uma rajada de vento atravessou o closet, fazendo as roupas dançarem. Ela dançou também.
Foi até o quarto e ligou o som. Tango. Música do século passado. Fez um gesto de indiferença.
Nem o século passado, nem todos os séculos anteriores e muito menos a nanica, conseguiriam fazêla perder o equilíbrio.
Voltou, dançando Gardel, para a frente do espelho. Não era mulher de deixar nada pela metade. Mesmo que isso significasse enfrentar uma dura realidade ou, talvez mais apropriado para o caso, um bisturi.
Estudou por alguns segundos a foto de corpo inteiro. Olhou a imagem do presente que o espelho refletia. Com as mãos espalmadas sob os seios, colocou-os de volta no que pensava ser a posição inicial, de-senhando uma linha imaginária no reflexo. Soltou-os. Uns três centímetros de queda livre. Numa matemá-tica de autodefesa registrou: trinta anos passados, três filhos, cada um amamentado até os dois anos de idade, total de seis anos de amamentação. Três crianças saudáveis.
Todas com mais de vinte anos. Conhecia casos piores. Algumas amigas mal podiam disfarçar muxibas deprimentes nos sutiãs.
Decidiu esquecer os seios. Passou à barriga, origem de toda aquela espécie de tornado girando na cabeça.
Na foto, cavada entre ossos que serviam de apoio às cordinhas do biquíni. Agora, no espelho, os ossos não aparecem mais. E só. De frente, nada. De perfil, uma saliência discretíssima que, mesmo considerada com muito rigor, não podia ser chamada de barriga no sentido pejorativo da palavra. Lembrou-se de novo dos filhos, das conversas com cada um deles, antes mesmo de nascerem.
Uma ou outra estria visível, seios um pouco caídos, algumas rugas por preocupações passadas, eram um preço pequeno a pagar por tudo o que já tinha vivido. Paixões, bailes, namoros, filhos, discos, livros, filmes, brigas e reconciliações, o casamento, bom enquanto durou. De repente, teve um pensamento de gratidão à amiga. Aquela frase – tá ficando barrigudinha, hein? – apesar de agressiva, fez com que ela atentasse para o próprio corpo, aceitasse a idade, o século, lembrasse dos filhos pequenos. Acabaria por telefonar-lhe, agradecendo.
Antes de dar a avaliação por terminada, virou-se de costas para o espelho e torceu o pescoço para observar a bunda. Desistiu imediatamente. Primeiro por medo de um torcicolo; depois, porque sempre ouvia elogios do namorado à sua bunda gostosa. Resolveu confiar nele até por conveniência.
Sentou-se na poltrona, fechou os olhos e relaxou ouvindo Gardel. A nanica era um poço de inveja. Não havia nada que um pouco de ginástica, ou, no máximo, um dia numa clínica de estética, não resolvesse. A outra, se conseguisse perder os dez quilos de peso que sobravam, provavelmente andaria arrastando as pelancas pela casa.
Quase dormiu; mas ao fim do cd, o silêncio a despertou. Levantou-se da poltrona num pulo e foi olhar o relógio do quarto. Sete e dez. Menos de quarenta minutos para se arrumar e sair.
Havia combinado um cinema com o namorado e, apesar do apartamento dele ficar dois andares abaixo e o cinema na esquina, se demorasse muito perderiam o filme. Vestiu rápido uma calcinha branca e um vestido amarelo. Não gostou do efeito. Comportado demais para a noite que ela
pretendia passar em comemoração àquela avaliação bem-sucedida. Trocou por uma calcinha preta e um pretinho, básico-ousado, modelo com a vantagem de dispensar o sutiã.
Procurou uma sandália, mas ao olhar para os pés, lembrou-se de que, além da tarde de sexta-feira na frente do espelho, havia perdido também a hora da manicure.
Thanks to the little
fat woman!
Calçou sapatilhas. Escova nos cabelos, batom.
Sem tempo para mais nada. Tirou da bolsa de trabalho documento, dinheiro, jogou na bolsinha indiana. Recolheu papéis que não paravam de cair da bolsa grande. Entre eles, o guardanapo amassado, no qual a “amiga” havia escrito o telefone, enquanto repetia que precisavam retomar a amizade. E era assim que ela pretendia retomar a amizade. Esculhambando logo no primeiro encontro. Desamassou com cuidado o papel e disse para ele: “Errou o alvo, minha cara. Eu sou mais eu!”
Pegou o telefone, teclou o número. Uma voz de homem atendeu.
“Por favor, a Regina está?”
“No momento, não. Você quer deixar recado?”
“Quem está falando?”
“O marido dela.”
O marido. Tudo estava saindo melhor do que a encomenda.
“Eu sou amiga dela. Meu nome é Ângela.”
“Ah! Sim, Ângela. Ela me disse que encontrou você hoje à tarde. Ela foi ao supermercado, não deve demorar.”
Supermercado. Onde mais?
“Não tem importância. Eu só liguei para dar a ela o telefone de um amigo. Ele é médico, sabe? Desses que emagrecem as pessoas. E faz milagres!”
Antes que o homem tivesse tempo de responder, ela se despediu e desligou. Largou o telefone em cima do sofá e saiu.
Em menos de dois minutos tocou a campainha do namorado. Alma leve, consciência só um pouquinho pesada. Ainda a tempo da sessão de cinema.