Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 171 – por Manuela Degerine

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Triunfo do Inverno

No ano passado choveu picaretas do Semininário Menor ao albergue de Negreira, entrara-me água para dentro das botas, escorrera-me tanta entre o impermeável e o pescoço que, quando tirei a camisola – a torci. Por a chuva e a tendinite obrigarem a avançar lentamente, passei dez horas com a mochila às costas, cheguei ao albergue exausta e gelada; já não havia água quente no duche. Depois toda a noite senti frio e, no dia seguinte, vesti a roupa, calcei as botas: molhadas.

Em abril de 2012 quase todos os andarilhos se encontravam desanimados, porquanto aguentáramos duas semanas não só com muita chuva mas também com demasiado frio. Vários haviam desistido antes de chegarem a Santiago; com febre e bronquite. Uma holandesa decidiu em Negreira que no dia seguinte: regressava a casa. A alemã que a acompanhava aguentou mais dia e meio porém em Cee optou igualmente pelo autocarro… Eu própria, a partir de Finisterra, comecei a contar: daqui por cinco noites durmo na minha cama! (Ao invés do que o polaco pensa, o tempo está agradável para caminhar.)

A cena poderia ser agora ou há mais de quinhentos anos, um homem de longas barbas apoia-se no bordão enquanto o rebanho pasta no meio da erva. Bos días! Após as saudações, apresentações e rituais preâmbulos, recito num silêncio com vento e melros.

Campo que te estendes

Com verdura bela

Ovelhas que nela

Vosso pasto tendes

De ervas vos mantendes

Que traz o verão

E eu das lembranças

do meu coração.

Gado que paceis

Co contentamento

Vosso mantimento

Não o entendeis

Isso que comeis

Não são ervas, não

São graças dos olhos

Do meu coração.

Mas o bom pastor canta outra cantiga, narra-me – compreendo todas as palavras – o stress da sua vida, o estômago, a solidão, a exploração, a fome da infância, a pobreza de hoje, a falta de sapateiros, estas botas tão caras, compradas na feira, deixam entrar água, a falta de navalhas, as lâminas tão caras, não duram e cortam a cara… O frio. Com os terrenos encharcados, nem onde se sentar ele tem, todavia as ovelhas alimentam os cordeiros, precisam de comer alguma erva… Voz grave e rouca. Entoa as palavras num ritmo irregular: passámos de Camões ao blues pastoral. (Lama nas botas, nariz borrifado… O que são os nossos incómodos de caminhantes ricos?!)

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