A CRISE DO LIVRO VEM DE LONGE – por Carlos Loures

livro&livros1

No blogue Estrolabio publiquei uma série de artigos relacionados com o livro, com os problemas que, de montante a jusante, afectam o percurso que vai do trabalho do autor às mãos do leitor. Os textos que irei publicando nesta rubrica, repetirão muito do que disse nessa série. Na verdade, não se tendo alterado substancialmente a realidade nestes dois ou três anos que decorreram, as palavras poderão ser outras, mas o seu sentido será idêntico.

Quando, no início dos anos setenta entrei no mundo da edição como profissional, uma vez que já na década de 60 tivera experiências em iniciativas editoriais, viviam-se tempos difíceis no sector. O baixo poder de compra e os índices de inflação daqueles anos – de 4,5% em 1971, atingiu os 27,8% em 1974, criavam dificuldades adicionais a um produto que a maioria das pessoas considerava (e considera) supérfluo. Por outro lado, a entrada no nosso mercado dos grandes grupos internacionais, com meios poderosos,  avançados sistemas de produção e sofisticadas técnicas de marketing, parecia ser um avassalador tsunami que iria destruir pelos alicerces a nossa frágil indústria gráfica e o mercado do livro. Porém, falando com editores veteranos, concluí que a crise do livro é, entre nós, endémica. Causas crónicas e outras que vão surgindo, não permitem que prosperem os negócios e as profissões que têm como eixo o livro.  Há décadas atrás, a persistência de uma larga percentagem de analfabetismo entre a população, o baixo poder de compra e a censura, eram três argumentos recorrentes (todos eles reais). A televisão não se usava ainda como desculpa, pois a oferta desse meio era escassa. Novas tecnologias? Computadores,? As primeiras esgotavam-se em electrodomésticos, os segundos, havia-os, grandes como armários, em empresas importantes.

Com as empresas estrangeiras, os estudos de mercado antecedendo a decisão de editar uma dada obra foram-se tornando coisa banal. Embora não sendo infalíveis, conseguiram resultados que o feeling dos velhos editores raramente atingiam. De notar que esse feeling, o «eu acho que», continua a ser o método (se assim se pode chamar) que os pequenos editores utilizam actualmente. E não há dúvidas de que há pequenos e médios editores com uma grande intuição e com um grande conhecimento dos gostos do mercado.

 Nos nossos dias, além de todos os constrangimentos que afectam o sector e que vêm do passado e de uma crise económica que obriga os consumidores a establecer hierarquias de prioridades de aquisição em que o livro fica mal situado,  uma nova ameaça se perfila no horizonte – o livro electrónico. Em próximos artigos, abordarei esta e outras questões que se relacionam com o mundo do livro, esse produto tão diferente de todos os outros e que tem sido ao longo dos séculos agente de transformações sociais, políticas, económicas e religiosas. Há muito para dizer.

 

Leave a Reply