RETRATOS COM HISTÓRIAS – MÁRIO CESARINY – POR EDUARDO GAGEIRO

 

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Mário Cesariny. 1963.”Foi na altura do grupo do Café Gelo”.

Em 1965, uma  polémica com Cesariny valeu-me a excomunhão do movimento surrealista. Publicara no Jornal de Letras e Artes, de Azevedo Martins, uma nota em que, a propósito de uma manobra política da redacção,  contestava a posição do surrealismo perante as injustiças sociais. Mário Cesariny de Vasconcelos, papa do surrealismo português, não me perdoou. Em carta ao jornal, verberou a minha abjuração, acusando-me de aburguesamento. Respondi, com o mau humor decorrente da porrada que levara e das longas noites de insónia forçada a que meses antes fora submetido pela PIDE –  não estava com paciência para aturar reprimendas. Corte completo. O meu nome que até então, figurava nas publicações surrealistas, pois coordenara a revista Pirâmide, uma das únicas realizações colectivas do «grupo do Gelo», foi limpo numa manobra que fez lembrar as técnicas da Checa, limpando Trotski e outros elementos inconvenientes das fotografias históricas. O que nada me preocupou. E respondi com uma frase de Raul Leal o mais velho elemento do grupo, colaborador do «Orpheu», amigo de Fernando Pessoa. À ameaça de excomunhão que após a publicação do panfleto Sodoma Divinizada a Igreja proferiu: «Se o Papa me excomungar, eu excomungo o Papa!».Apesar desta zanga, seria ingratidão não reconhecer que foi com os mestres do surrealismo que, mal ou bem, aprendi a escrever. Cesariny tinha mau feitio e o meu também não é dos melhores – o papa excomungou-me e eu excomunguei o papa – mas nunca esqueci, nem esquecerei – Mário Cesariny de Vasconcelos foi um grande poeta, um dos maiores do seu tempo. (CL)

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