HÁBITOS DE LEITURA E PRIORIDADES SOCIAIS – por Carlos Loures

livro&livros1

Pitágoras disse. «Educai as crianças para que não seja necessário punir os homens». A ausência de hábitos de leitura (que têm de ser criados desde os primeiros graus do Ensino), conduz à existênci de licenciados e de mestres como os que frequentemente aparecem nos concursos da televisão e que não sabem responder a questões básicas de cultura geral. Conduz a gente que tem um diploma, mas que nada sabe a não ser (na melhor das hipóteses) do acervo restrito de áreas de competência, muitas vezes, de duvidosa utilidade social. A ignorância é a punição de que Pitágoras falava.

Em textos anteriores falei sobre a crise endémica do sector do livro e das ameaças que ciclicamente surgem ao livro sob a forma que desde há mais cinco séculos assumiu após a invenção de Gutenberg. O livro electrónico poderá vir a ser uma alternativa, mas o que tem acontecido com as inovações tecnológicas é que, ao nascer, destroem, neutralizam, as anteriores. Hoje abordarei outro aspecto – o da necessidade de uma política do livro. Porque, mais grave do que a crise do mercado livreiro, é a ausência de uma política cultural que induza os cidadãos a ler e a colocar o livro na sua lista de prioridades.

A génese da crise é geralmente atribuída ao baixo poder de compra. Mas, não negando a gravidade da crise económica, os concertos de música rock esgotam a lotação de recintos gigantescos e os bilhetes vendem-se com meses de antecedência e com gente a dormir junto das bilheteiras. Isto para falar só num dos concorrentes da leitura. Há outros. Um livro, mesmo que não seja dos mais baratos, custa muito menos do que a ida a um concerto. Uma causa que era apontada há dezenas de anos, era o analfabetismo. Actualmente, o analfabetismo é residual (embora a iliteracia o não seja).  A percentagem actual de diplomados do Ensino Superior é semelhante à de que, por altura da proclamação da República, havia de diplomados do ensino primário. Apesar da crise, trata-se mais de uma questão de opções e de prioridades culturais do que de um constrangimento económico ou de uma incapacidade funciconal.

 O livro electrónico não é, quanto a mim uma ameaça, mesmo que venha a concretizar-se a ultrapassagem do livro impresso por um suporte diferente, a questão de fundo residirá sempre na existência ou não de um público ledor. Para falar só nos últimos cinquenta anos, nem o Estado Novo, nem os governos democráticos souberam criar uma política do livro. Claro, dirão logo alguns, mas os programas escolares contemplam a literatura. Mas não é de programas escolares que estou a falar. É de educação integrada – uma das minhas utopias, claro. Voltemos à temática da crise do livro.  Porque para além das crises objectivas há, sobretudo e sempre, crise de valores da sociedade. E se um pouco da força e energia mediáticas das que são gastas em ninharias fossem postas ao serviço da cultura? Cultura no sentido lato, não no sentido livresco. Embora a disseminação da cultura nesse sentido lato de aquisição de valores e de saberes, se traduzisse também na venda de mais livros.

1 Comment

Leave a Reply