“Camilo Castelo Branco e o garfo”, de José Viale Moutinho – por Inês Figueiras

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Conhecido camilianista, José Viale Moutinho surpreendeu-nos com a edição de Camilo Castelo Branco e o garfo (Âncora Editora, Março de 2013), uma obra que disseca a gastronomia nas obras do génio de São Miguel de Seide. Inês Figueiras, leu o livro e diz-nos aquilo que a leitura lhe sugeriu.

Óbvia noutros autores, a relação com a alimentação permanecia no limiar do subconsciente na bibliografia de Camilo Castelo Branco. Até que José Viale Moutinho arregaçou as mangas e pôs a mão na massa, com poucos ovos fez a omelete (as referências a comida e bebida na obra de Camilo são poucas, tendo em conta a sua dimensão), e deu-nos a conhecer o lado gastronómico de um dos escritores mais marcantes da língua portuguesa.

 As citações, recolhidas nas obras, crónicas e cartas dispersas de Camilo, são muitas vezes acompanhadas de receitas, que José Viale Moutinho procurou adaptar, sempre que possível, à época. Há de tudo um pouco. Aos caldos (de cebola, de couves, de cozido…), juntam-se pratos típicos como arroz de cabidela, dobrada, feijoada à transmontana ou atum em bifes à algarvia, sem esquecer as sobremesas: aletria, pão-de-ló à antiga, toucinho-do-céu…

 Assim, este livro não só se dirige aos camilianistas mas também aos admiradores da cozinha portuguesa, tendo o potencial de abrir o apetite a outras leituras. Pecado, nesta obra, só mesmo não haver mais receitas.

 Como última nota, chamo a atenção para um pormenor sui generis: a propósito de um excerto que refere o capão, o típico frango capado de Freamunde, José Viale Moutinho dá destaque a uma campanha dinamizada pela ilustradora e designer Fedra Santos, a favor de que os capões sejam poupados à dor durante o processo de castração. Pode não ser o livro mais indicado para abordar este assunto («Mas podem crer que não acredito que Camilo, a avaliar pela história que contei na abertura do livro, aquele caso do rabo do porco, se preocupasse com isto!», p. 149), mas dá que pensar…

 Um excerto:

«XLIV – ENTRE A FLAUTA E A VIOLA (1872)

 “Eu, na minha qualidade de escrivão do juiz eleito, estava a escrever num processo, quando ela passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo, como largaria um ceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar à mesa redonda do Hotel Portuense. Comeu apenas uma asa de borracho e meia banana. Que estômago tão fino! É que ali está um coração imenso, cheio de ternura e com mais poesia que um livro de versos.”

Fragmento da fala de Guterres, cena VII. Entremez em um acto, que circula incluído no volume de Teatro Cómico.

 Borrachos – Atenção, leitor, inocente camilianista, não vá andar por aí a correr atrás das pombas nos espaços públicos, na mira de lhes descobrir os ninhos! Os borrachinhos que eventualmente por lá encontrar não lhe caberão na cavidade de um dente! Por outro lado, estes borrachos também não pertencem à categoria dos outros, dos que está a pensar. Estes, encontra-os nos talhos, já depenados e em tamanho aceitável. Não é complicado.

Tempere os borrachos com sal e pimenta. Cubra-os com duas fatias de bacon cada um, prendendo estas com palitos. Meta os borrachos num tacho com manteiga derretida. Deite-lhe vinho. Leve ao forno quente por quinze minutos. Passe para lume brando e demora 45 minutos. Vá regando com molho de tomate e ervilhas. Não tarda, estarão prontos a servir.» (p. 120)

O autor:

Tendo integrado a Comissão Nacional do Centenário da Morte de Camilo, José Viale Moutinho é autor de Camilo Castelo Branco: Memórias Fotobiográficas, menção honrosa do Prémio do Grémio Literário e Prémio Rosalía de Castro do PEN Clube da Galiza. Ainda neste âmbito, prefaciou a edição galega de Amor de Perdição, bem como as reedições de obras de Camilo – Ecos Humorísticos do Minho, O EsqueletoO Vinho do Porto: Processo de uma Bestialidade InglesaCurso de Literatura PortuguesaA Infanta CapelistaHistórias de Camilo Castelo Branco – e também dos estudos 5 Cartas Inéditas de Camilo a Fernando CastiçoCorrespondência de Joaquim de Araújo com Camilo Castelo Branco e Ana PlácidoQuinteto Camiliano.

 Ficcionista, poeta e dramaturgo, este escritor é ainda autor de extensa obra infanto-juvenil. Os seus livros mais recentes são Velhos Deuses Empalhados (contos), O Antigo Café  de  S. Lázaro (textos sobre arte), O Grande Livro das Tradições Populares Portuguesas e Primeira Linha de Fogo: Da Guerra Civil de Espanha aos Campos de Extermínio Nazis.

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