RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Saltam as rolhas do caro champagne em Lisboa porque a crise acabou, disparam-se os primeiros tiros de bazuca a partir dos mercados financeiros porque a crise se intensificou

Júlio Marques Mota

PARTE XI
(CONTINUAÇÃO)

Como se assinala no texto abaixo, vejamos pois o que nos diz o fundo especulativo e para isso nada melhor do que fazer a reprodução do seu texto.

De acordo com o Hedge fund americano:

Figura XXIXComentários e alternativas- O PSI é a melhor opção para a restruturação

bazuca - XXXV

A caminho da resolução da crise segundo o Hedge fund Tortus:

•Criar um governo tecnocrático com o apoio do PS, PSD, CDS com o mandato de um ano para reestruturar a dívida soberana de Portugal;

• Aprovar uma lei no parlamento para retroactivamente introduzir Collective Action Clauses na lei portuguesa sobre contratos da dívida pública;

• Reestruturar todos os títulos na posse de entidades privadas, ou seja, aproximadamente 50% da dívida pública de e Portugal;

• Trocar os títulos antigos por títulos novos pelos novos títulos com um corte de 40 a 50% do valor facial, a 2%-3% como taxa de juro e com maturidades de 10-25 anos;

• Oferecer garantias a quem participe na retoma da economia;

• Compromisso por parte de Portugal em prosseguir as reformas estruturais para aumentar o potencial de crescimento e melhorar a competitividade, mantendo a disciplina orçamental exigida l

• A Europa passa a aplicar a Portugal, via os seus mecanismos próprios, taxas de juro iguais a zero pelo FEEF e pelo MEE e a Europa obriga-se igualmente a promover o crescimento e o investimento em Portugal.

Eis pois o que pensa um Hedge fund americano e que presumo não seja dos menores. Possivelmente a pensar na especulação que pode praticar.

Simples a solução então segundo este operador nos mercados financeiros. Uma saída demasiado simples, para ver pensar como saída para a crise, demasiado simples para se considerar verosímil sequer, e isto independentemente da situação negra que o texto retrata e em que o faz de forma espectacular.

Atente-se na solução. De acordo com o melhor cenário, o melhor cenário estabelecido pelo FMI, Portugal só poderá pagar 70% do serviço da dívida. Solução: elimina-se a parte da dívida corresponde aos encargos da dívida que se não podem pagar. Para a dívida em questão podemos apenas pagar 70% dos encargos da dívida, então reduz-se a dívida para 70% com uma tesourada, com um bail in, a exemplo do que se fez na Grécia. E fazê-lo já e não depois…

Curiosamente, este texto muito bem feito, acrescente-se, é publicado no dia em que Portugal vai aos mercados. Um rumor a ser criado? Na minha opinião tudo aponta para isso. Vejamos um ou outro ponto. Imaginemos então o corte de 30% na dívida. No melhor cenário precisamos de um corte para pagar o serviço da dívida. Mas isso significa que ficamos economicamente e socialmente na mesma, como se fossemos para nenhures. Tratar-se-ia então de se traçar a road to nowhere, um caminho para nenhures. Mas sabemos também, desde os tempos de Lewis Carroll, sabemos com Alice no País das Maravilhas, um livro que deveria ter lido na infância que devia ter tido, que o caminho para nenhures, esse, ninguém conhece, pela simples razão de que não existe. Mas num mundo em concorrência ninguém pode ficar na mesma, ou se avança ou se recua. Ora os dados apresentados de que não temos meios de crescimento neste momento dizem-nos então que a nossa situação seria a de uma regressão económica e social num curto espaço de tempo. Recuaríamos enquanto teoricamente outros estariam a avançar. Se assim não é, o mais natural é então que muito pouco tempo depois, estaríamos na mesma situação enquanto os outros terão avançado, isto é recuámos!

Mas diz o texto e aí tem razão que o corte sobre a dívida pública não chega, que seria necessário que a União Europeia passasse a disponibilizar fundos a taxas de juro nulas e mais ainda seria necessário que a União Europeia garantisse os meios que para haja efectivamente crescimento económico. Certo aqui, mas neste texto encontramos uma contradição semelhante àquela em que cai João Ferreira do Amaral: se a Europa fosse capaz de fazer isso, e isso é rigorosamente necessário e urgente, então a Europa seria capaz de vencer a crise, em vez deste calvário que a todos está a ser imposto, onde corremos o risco de deixar de ser verdadeiramente um país para nos transformarmos num sítio na periferia da Europa. Um sítio onde os nórdicos poderão vir passar férias quase que gratuitamente ou, em sua substituição e no contexto da aguda violência comercial que traz a globalização e a austeridade europeia, talvez os turistas venham a ser predominantemente chineses. A exposição dos dados é magistral, grande parte da sua leitura é-o igualmente, a sua conclusão de que a crise se resolve pela tesourada na dívida, é que de magistral não tem mesmo nada. Aliás ignora que a crise sendo  financeira no seu rebentar da bolha, está antes e previamente muito  ancorada na economia real, ou seja a crise na economia financeira é o fenómeno e a crise na economia real é a causa. Comete pois o mesmo erro que os mercados financeiros e que a Troika.  Não se deve deixar de apresentar algumas lacunas demasiado importantes para não serem referidas, e esta confusão do autor é de peso. Nesta mesma linha  de raciocínio e por isto mesmo , na concepção errada nº 2 não basta estar a bandeira da China, seria preciso mais, seria necessário criticar a política comercial da União Europeia que deixa os mais fracos desabrigados face à austeridade e face à agressividade comercial de países terceiros[1]. Do mesmo modo seria necessário explicitar um outro forte problema, maior ainda em recessão, que é a concorrência fiscal no interior da União. As TSU de vários países são disso um bom exemplo. Mas sobre estas matérias nada no texto do Hedge fund, pela simples razão de que não é nisso que ele está interessado. Ele está interessado no ataque à dívida portuguesa, nada mais.

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[1] Deixem-me chamar-vos a atenção para um estudo recente sobre o acordo NAFTA que foi estabelecido entre os Estados Unidos, o México e o Canadá, antes da China entrar para a OMC, em 1994. Actualmente, o grande ganhador com este acordo  nas exportações do México para os Estados Unidos  não é o México, é a China. O grande ganhador no que eram as exportações dos Estados Unidos para o México não é os Estados Unidos mas sim a China, igualmente. Porquê? Porque num mundo sem regras ganha quem as não tem, facto que a União Europeia quer sistematicamente ignorar, para estar de acordo com o modelo, mesmo que a realidade nada tenha a ver com as hipóteses do modelo.

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Para ler a Parte X deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

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