DE NOVO “O ROMANCE DA RAPOSA” – por Clara Castilho

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O artigo que Clara Castilho escreveu em Maio de 2013 sobre O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro tem tido numerosas leituras  – aqui está o link para quem o quiser consultar.

http://aviagemdosargonautas.net/2013/05/03/relendo-o-romance-da-raposa-por-clara-castilho/

Mas, considerando a curiosidade despertada por esta incursão do mestre Aquilino na literatura para os mais jovens (houve mais) , pedimos à autora do post uma abordagem mais desenvolvida sobre.

 Imagem1Esta obra foi reeditada em 2009 com novas ilustrações de Artur Correia e faz parte do Plano Nacional de Leitura, tendo sido estudada no 1º e no 2ºciclo. No final da referida edição, é transcrita uma breve entrevista a Aquilino Ribeiro, em que se promete desvendar «as teorias do autor acerca de literatura infantil». Aí, Aquilino Ribeiro explica que, embora tendo uma preocupação de adequar os temas à idade das crianças a que os livros se destinam, diminui tal cuidado no que respeita ao vocabulário: «Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura de uma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora […] é um obstáculo que vence, penetrando-lhe o sentido por intuição natural.».

E acrescenta-se: Esta funda consciência de que num livro a aprendizagem se faz menos pela informação do que pela fruição do texto, palavra por palavra, torna este texto uma obra-prima, com lugar cativo no Plano Nacional de Leitura.

Mas, navegando pela internet, nem sempre é isto que vejo. Encontram-se muitas indicações de perguntas a fazer às crianças, guiões de leitura e exercícios programados, com algumas actividades lúdicas a partir da leitura e do estudo do livro. E verificos que, muitas vezes, não se parte da leitura da obra, mas sim do video com o mesmo nome, de 1988, adaptação de Marcello de Moraes. Existe também um áudio-book.

Num blog de professores encontrei o seguinte: “ A actividade “Brincando com a Salta-pocinhas” pretende que as crianças se apropriem da história do desenho animado «O Romance da Raposa», saibam interpretá-la e analisá-la ao nível da Língua Portuguesa. …a elaborarem um resumo sobre a mesma, bem como dar uma opinião crítica sobre a estratégia do lobo para “apanhar” a Salta-pocinhas. …elaborem uma ilustração sobre a história em questão. …pretendemos que as crianças, de uma forma sucinta, se apropriem do sentido global do texto, identificando as ideias centrais do mesmo; que relacionem a informação lida com conhecimentos exteriores ao texto; que consigam distinguir informações de causa/efeito e de facto/ficção; que desenvolvam tarefas de compreensão e expressão escrita; bem como, a capacidade de opinar criticamente sobre os conteúdos.” E indicam os materiais necessários para esta tarefa.

Na Casa da Leitura, num texto escrito por Rui Marques Veloso, encontrei algumas reflexões interessantes.

“Note-se que vivemos hoje um tempo em que os valores ecológicos são respeitados porque condicionam a nossa qualidade de vida; o que temos nesta obra – e daí uma das vertentes da sua actualidade – é a manifestação de um profundo amor à Natureza. Não há distorção da verdade, em nome de um assepsia destinada a não chocar as crianças, mas um justo equilíbrio entre o saber do leitor e a narrativa que retrata os jogos de poder no seio dos animais. O autor não faz concessões às preocupações moralistas que dominaram a criação literária para os mais jovens; nada impõe, deixando que, no acto mágico da leitura, se descortinem a liberdade e a solidariedade como dádivas a conquistar no nosso percurso de vida. Paralelamente, perpassa pela obra um fino sentido de humor, ora dado pelo discurso, ora pela exploração de situações marcadamente cómicas. Uma ideia-chave que Aquilino quis deixar clara, e que se mantém actual, é a de que a inteligência supera sempre a força bruta; todos sabemos quanto a criança sofre com as frequentes situações de prepotência agressiva por que passa, em particular no espaço escolar, e como é salutar ela acreditar que a violência gratuita e estúpida será sempre derrotada. Ao protagonizar simbolicamente as aventuras ali narradas, ela sente que é preciso acreditar na nossa inteligência para sairmos vencedores dos confrontos que se nos deparam todos os dias. A organização diegética está adequada à natureza de um leitor que gosta de ter arrumadas, por capítulos breves, as proezas da Saltapocinhas, estimulando a articulação entre eles como partes de um todo coerente. “

 […] Ninguém pode apreciar aquilo que não conhece; seria uma lacuna grave na formação do indivíduo a privação de um convívio, natural ou mediatizado pelo adulto (pais ou professores), com as obras clássicas de referência. Considero o Romance da Raposa um clássico da nossa literatura infantil, capaz de agradar às crianças de hoje como aconteceu com as crianças do passado.”

No blog da Escola Secundária de Cacilhas, fiquei a saber que “a Direcção dos Serviços da Censura, em 1957 e na sequência da publicação das «Instruções Oficiais» que visavam «evitar a excitação imoderada das crianças e dos jovens» e imprimir um «cunho nacional» na literatura para crianças; rotulou o «Romance da Raposa» como “não aconselhável” e marginalizou a obra, tal como em relação a outras obras de «autores que não alinhavam em moralidades escusadas […], tratando a criança-leitor sem infantilismos nem pieguices.» Tal não impediu que a Fundação Calouste Gulbenkian (1961), no seu Boletim Informativo 3, integrasse a obra de Aquilino Ribeiro no surto de desenvolvimento da literatura infantil em Portugal e num conjunto de obras que procuravam «encantar e, ao mesmo tempo, elevar o espírito das crianças».

Fico a pensar o que significará este livro para as crianças que o abordam em 2014. E digo “abordam” porque não sei se o lêem, ou se ficam só pelo video. E não sei se, depois das perguntas todas que lhes são feitas, não perdem a magia do texto. Ouvir ler o livro em voz alta, isso é que seria uma boa introdução que levaria ao desejo da leitura pela própria criança.

Gostaria que as crianças pudessem passar pela experiência que Aquilino Ribeiro defendia: “A leitura de uma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora […] é um obstáculo que vence, penetrando-lhe o sentido por intuição natural”.

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