Por vezes somos tentados, pela indignação, a falar do que nos impressiona pela negativa. Este texto tenta ser uma reflexão positiva em relação à sociedade e às crianças.
Apesar do sofrimento de muitas crianças, há, também, quem trabalhe, seja voluntário em instituições que têm projectos baseados nos Direitos da Criança e que tratam as crianças como pessoas capazes de falarem sobre a sua vida, de confidenciarem que queriam uma vida melhor, e, por vezes, que não gostam dos pais.
Estas crianças não sabem nem os seus Direitos nem os seus Deveres. Na Declaração da Convenção dos Direitos da Criança, o artigo 42º diz que todos têm direito ao conhecimento dos seus direitos e deveres, como têm também direito ao conhecimento.
Essas instituições e as pessoas que lá trabalham fizeram projectos nesse sentido, Dar Voz à Criança, ou seja, aplicar a Convenção da qual Portugal foi dos primeiros países a assinar e, por isso, tem que incentivar, através, da Educação, da Saúde, da Habitação… o cumprimento dos artigos lá consignados.
Um desses projectos é “ O espaço a Brincar, uma viagem pelos Direitos da Criança…” da C.M.L. (Acção Social).
Para melhor reflexão e comunicação “ O espaço a brincar” trabalha com quatro categorias da Convenção dos Direitos da Criança: Sobrevivência, Protecção, Desenvolvimento, Participação.
Estes quatro temas têm como pilar a não descriminação, o interesse superior da Criança, o princípio da sobrevivência e desenvolvimento e o respeito pela opinião da Criança.
Para seguir, um pouco, esta linha de solidariedade com as crianças não posso deixar de referir os casais que adoptam crianças.
Nos anos oitenta conheci uma família numerosa que vivia num bairro marginalizado e marginal, com fracos recursos económicos e sociais (nessa altura não havia os apoios sociais que há hoje), que tratava os seus filhos com alguma severidade, mas daria a vida por eles. Um dia, viu no café uma adolescente do Bairro com um bebé ao colo, sem saber o que fazer. A adolescente tinha apenas um triste saco plástico com um casaquinho para o bebé. Trazia nos olhos uma grande tristeza como se a vida estivesse vazia, apesar de ter o seu filho ao colo.
A mãe desta numerosa e problemática família adoptou este bebé sem fazer nenhuma discriminação quanto ao género, etnia, religião. Esta mulher, sem saber, estava a dar vida a um dos Direitos da Criança. Não me esquecerei deste gesto de solidariedade. Quem de nós o faria? Acompanhei o crescimento desta menina e não havia diferença entre os filhos e esta bebé, pelo contrário, toda a família se preocupava com a menina.
A adopção é um gesto tão grande que não há palavra no dicionário que o possa descrever. É um sentimento nobre que faz as pessoas felizes, é uma troca de afectos, por vezes, comovente.
Esta semana discutiram na Assembleia da República a co-adopção de crianças por casais homossexuais. Foi uma tristeza perceber que a maioria dos deputados votou contra a co-adopção. Foi uma falta de respeito por todos, mas principalmente pelas crianças. Os deputados da maioria parlamentar, homens e mulheres de um país cada vez menos democrático, não tiveram escrúpulos em atirar para a infelicidade as crianças já adoptados por um dos elementos do casal. Será que esses deputados têm a secreta intenção de “ajudar” essas crianças se houver necessidade disso?
Como dormem descansados depois de terem negado a felicidade a algumas crianças?
Co-adopção no Dicionário de Língua Portuguesa quer dizer “acto jurídico pelo qual se estabelece uma relação legal de filiação com o filho de um cônjuge ou afim”
Oxalá, esta lamentável atitude dos deputados da maioria parlamentar tenha levantado a ponta do véu e a sociedade comece a reflectir sobre o que significa a co-adopção e chegue ao reconhecimento da adopção plena, para bem da felicidade da criança.
Temos que lutar contra preconceitos que se instalaram numa sociedade que queria tudo perfeito e igual, mas os seres humanos são todos diferentes e só têm que respeitar as diferenças. A família tradicional com pai, mãe, filhos e se possível avós já quase não existe, existem novos modelos de famílias: a mono parental, a reconstruída e agora a família com dois pais ou duas mães do mesmo género e os filhos de uma ou de outra.
No caso dos pais o filho pode ser biologicamente de um deles ou ter sido adoptado. Para não falar das famílias que se formam com filhos nascidos de uma desconhecida, ou seja, da chamada “barriga de aluguer”.
Há tanto a reflectir sobre o comportamento humano e a formulação de regras sociais…