No Dia do Porto vamos ter uma quantidade muito grande de artigos, vídeos, crónicas, poesia, ficção, fotografias… Não trabalhamos para figurar no Livro Guiness dos Recordes, mas na sexta-feira iremos pelo menos bater o nosso máximo. A qualidade, sim, é a nossa preocupação. Tal como era para um portuense ilustre – Almeida Garrett:
ALMEIDA GARRETT: “NASCI NO PORTO, MAS CRIEI-ME EM GAIA” – por Carlos Loures
Almeida Garrett é uma figura que identificamos com a cultura, com a literatura, com o teatro. Chamar-lhe-íamos na linguagem dos nossos dias,
“um ícone da cultura portuguesa do seu tempo”. A sua preocupação com o aspecto, a maneira como se veste, indiciando o dândi, o peralvilho, mais não é do que o invólucro enganador de uma personalidade multifacetada, de um intelectual rigoroso, de um político corajoso, de um homem de carácter, em suma. A sua preocupação com o aspecto talvez seja apenas o desejo de agradar ao belo sexo, uma consequência do seu carácter de sedutor impenitente. Revolucionário, jovem, com boa figura e um permanente cuidado com a elegância do trajo e da postura, cria uma aura de heroísmo que o faz ser bem recebido nos salões mundanos.
Casa na antiga Rua do Calvário, no actual nº 37 da Rua Dr. Barbosa de Castro. Aqui nasceu Almeida Garrett.
Em Viagens na Minha Terra diz; «Eu amo a charneca.. E não sou Romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser – ao menos o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra». A sua vida é constelada por casos amorosos. No seu caso, o adjectivo romântico assume duas acepções, pois além do sentido mais comum, no plano da arte e da literatura, Almeida Garrett é a figura de proa do Romantismo em Portugal. “Romanesco”, não será. Mas duplamente romântico não «se livra de ser».
Nasce numa família da alta burguesia.. O pai, Selador-Mór da Alfândega do Porto, é um proprietário da ilha Terceira, com três irmãos eclesiásticos. A mãe é oriunda de uma família minhota de origens humildes, mas que fez fortuna no Brasil. O apelido Garrett, de ressonância aristocrática, foi recuperado de uma antepassada irlandesa do lado paterno. É gente com teres e haveres e com a noção do valor da cultura. O pequeno João Baptista recebe uma esmerada educação guiada por dois dos tios paternos.
Em 1804, a família muda a residência para Vila Nova de Gaia, vivendo na Quinta do Castelo, no lugar do Candal, freguesia de Santa Marinha, nas proximidades das ruínas do Castelo de Gaia. Aqui terá ouvido falar na lenda de Gaia que mais tarde dará origem a um poema seu. Depois, a família transfere-se para a Quinta do Sardão, em Oliveira do Douro, propriedade pertencente ao avô materno José Bento Leitão. Escreverá mais tarde: “Nasci no Porto, mas criei-me em Gaia”. Mas Almeida Garrett não será nunca uma figura regional. Não pertencerá ao Porto, nem a Gaia, nem a Angra do Heroísmo, nem a Lisboa… Virá a ser uma figura nacional. Sem que isso signifique a rejeição das suas origens – uma das frases mais citadas no Porto é de Garrett, ostentando o seu orgulho tripeiro – «Podemos trocar os vês pelos bês, mas não trocamos nunca a liberdade pela servidão».
Casa na antiga Rua do Calvário, no actual nº 37 da Rua Dr. Barbosa de Castro. Aqui nasceu Almeida Garrett.
(in Almeida Garrett , Vidas Lusófonas http://www.vidaslusofonas.pt/garrett.htm)


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