Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.
Minha mãe e eu entramos em casa depois do longo passeio Fora eu soubera que era quase o entardecer aquelas cores tranqüilas no ar mas já agora caminhando pelo corredor conhecido sempre em penumbra passando ao lado do quarto de meu pai parecia que fosse antes do meio-dia
Passando a porta do quarto entreaberta eu via de fugida o rosto de meu pai deitado na cama e digo então à minha mãe que depois eu queria falar um dia com meu pai Como se escutasse o seu rosto apareceu-me todo e me perguntou de longe Quero falar-lhe para esclarecer os nossos sentimentos as coisas que eu não compreendo Minha voz era frágil e decidida ao mesmo tempo Porém era feita com o tom de medo por alguma coisa desconhecida que instantaneamente eu via concreta por toda a casa
Um longo tempo branco ocupou os meus olhos deixando-me sozinho junto a todas as coisas
Então na sala salão lustrada minha mãe entrou bailarina nua com uma enceradeira de mão bailando numa valsa muda Eu fixava o doce belo baile louco de minha mãe na brancura daquele espaço agora conhecido e me vinha a vontade de rir alto e dançar com ela sem mais parar Depois entrou meu pai Vinha para mim olhou-me e o vi tranqüilo muito tranqüilo com uma correia na mão direita Meu pai e eu nos olhamos dentro do branco espaço que ocupava o salão Tomei a correia da mão de meu pai Não tenha medo pai que não quero maltratar-te Três janelas se abriam para fora alargando ainda mais a sala e iluminando o grande espaço de cores claras Salão e tarde eram um só espaço Meu pai cresceu para mim com outra correia na mão direita Ele crescia crescia aos meus olhos como estátua enorme vista por um menino que levantava os olhos para as nuvens Não faça isso pai que te destruirei para sempre O rosto sereno de meu meu enorme sorria e sua mão direita fingia um gesto agressivo com a correia e eu vigiava o gesto Ele olhava e sorria para fora do salão como se falasse com um amigo escondido por detrás da parede branca do corredor Atento eu fixava a mão direita de meu pai e via o seu rosto que sorria falando ao amigo escondido Fixava sua mão e temia que a tarde se escondesse na noite e toda a luz do salão se perdesse fora das três janelas abertas para aquela noite Eu fixava o gesto de meu pai e tinha medo de chorar
Então na brancura colorida da tarde minha mãe bailarina aproximou-se de meu pai e lhe tomou docemente a correia Depois se abraçaram e começaram a dançar aquela valsa muda que me fechava num ângulo do salão

