CONTOS & CRÓNICAS – “Sonho n° 1” ” – por Sílvio Castro

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Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.

        Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.

                Minha mãe e eu entramos em casa depois do longo passeio  Fora eu soubera que era quase o entardecer aquelas cores tranqüilas no ar  mas já agora caminhando pelo corredor conhecido sempre em penumbra  passando ao lado do quarto de meu pai  parecia que fosse antes do meio-dia

                Passando  a porta do quarto entreaberta  eu via de fugida o rosto de meu pai deitado na cama e digo então à minha mãe que depois eu queria falar um dia com meu pai  Como se escutasse o seu rosto apareceu-me todo e me perguntou de longe  Quero falar-lhe para esclarecer os nossos sentimentos as coisas que eu não compreendo  Minha voz era frágil e decidida  ao mesmo tempo  Porém  era feita com o tom de medo por alguma coisa desconhecida que instantaneamente eu via concreta por toda a casa

                Um longo tempo branco ocupou os meus olhos  deixando-me sozinho junto a todas as coisas

                Então na sala salão lustrada minha mãe entrou bailarina nua com uma enceradeira de mão  bailando numa valsa muda  Eu fixava o doce belo baile louco de minha mãe na brancura daquele espaço agora conhecido  e me vinha a vontade de rir alto e dançar com ela sem mais parar  Depois entrou meu pai  Vinha para mim  olhou-me e o vi tranqüilo  muito tranqüilo com uma correia na mão direita  Meu pai e eu nos olhamos dentro do branco espaço que ocupava o salão  Tomei a correia da mão de meu pai  Não tenha medo  pai  que não quero maltratar-te  Três janelas se abriam para fora alargando ainda mais a sala e iluminando o grande espaço de cores claras  Salão e tarde eram um só espaço  Meu pai cresceu para mim com outra correia na mão direita  Ele crescia  crescia aos meus olhos como estátua enorme vista por um menino que levantava os olhos para as nuvens  Não faça isso  pai  que te destruirei para sempre  O rosto sereno de meu meu enorme  sorria e sua mão direita fingia um gesto agressivo com a correia e eu vigiava o gesto  Ele olhava e sorria para fora do salão como se falasse com um amigo escondido por detrás da parede branca do corredor  Atento  eu fixava a mão direita de meu pai e via o seu rosto que sorria falando ao amigo escondido  Fixava sua mão e temia que a tarde se escondesse na noite e toda a luz do salão se perdesse fora das três janelas abertas para aquela noite  Eu fixava o gesto de meu pai e tinha medo de chorar

                Então na brancura colorida da tarde minha mãe bailarina aproximou-se de meu pai e lhe tomou docemente a correia  Depois se abraçaram e começaram a dançar aquela valsa muda que me fechava num ângulo do salão

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