CONTOS & CRÓNICAS – ” A cobra e a macieira” – por Eva Cruz

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Era Setembro. Depois de fortes chuvadas, amainou o tempo e o sol veio de novo, quase com a mesma força do Verão. O caminho brilhava de lavado.

 Rente ao pequeno muro, feito de pedras soltas, seguras pelas ervas daninhas que espreitam dos buracos, um gatito branco e preto brincava com uma cobra, cobrita fina, pouco mais comprida do que ele. Tocava-lhe com a patita e ela empertigava-se, erguendo a cabeça. Voltava a desafia-la e de novo ela reagia. Fez isto vezes sem conta, sem que eu me apercebesse se brincavam ou lutavam.

 Pôs fim a este jogo a dona do gato que, sem meias medidas, cortou a cobra ao meio com a enxada. O gato fugiu. Depressa voltou, tocou a medo na cobra feita em duas, recuou e finalmente foi-se embora com o rabo entre as pernas. Não sei se vencedor, se vencido.

Fui-me embora também.

 Peguei num cesto e fui colher umas maçãs vermelhas e pardas, mais que maduras. A passarada não as deixa em paz. Antes que as comam todas, vou apanhar algumas.

 Pelo caminho colhi umas peras furadas pelas abelhas, uns figos de pingo de mel de boca rachada pelas chuvas, senti inebriada o cheiro doce das uvas americanas. Finalmente cheguei à macieira. Estava tão fascinada com a beleza das maçãs, que as contemplei uma a uma nas mãos colocando-as no cesto com a estética que mereciam. Cortei uns galhos e umas folhas com cores de Outono e ajeitei-as como quem faz uma ramo de flores.

 De repente olho para o chão e vejo uma coisa comprida e preta no meio da erva. Tive uma sensação de desmaio, e caí para o lado. Dei comigo a dizer quase sem fala : Uma cobra! Consegui levantar-me, abandonei o cesto e a sua beleza, e fugi a sete pés, a gritar: Uma cobra!

 Vieram a correr. Adonde é que ela está, eu vou buscar uma enxada.

Quando viram o bichito, ele estava quedo e inerte. Está morta. Oh! Isto não é cobra nenhuma. É um liscranço, um bicho cego, não faz mal a ninguém. E todos se riram dos meus medos.

 Voltei receosa à macieira, mesmo sabendo que o liscranço estava morto. Ainda arrepiada, peguei no cesto das maçãs e no orgulho da sua beleza.

 E pensei no Paraíso, na coragem da Eva, na maçã e na serpente … mas senti vergonha do gato.

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