BULLING CONSENTIDO? I por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

A justiça existe, é um bem público criado à imagem de cada época e de cada sociedade.

Como todo o bem público, não é ensinado como disciplina, na escola, é uma vivência que a todos diz respeito. Todos têm direito à justiça, e todos têm deveres em relação à justiça.

A família e a escola são as instituições que foram incumbidas de zelar pela educação das crianças e dos jovens, mas a sociedade civil não se pode descartar desta missão, pois é também por ela e para ela que somos educados.

Alguns rejubilaram de alegria ao saberem que a violência na escola é considerada crime. Não se regozijaram por ser crime público e ponto final. Mas sim porque crianças e adolescentes podem agora ser punidos pelos tribunais!

A violência é crime público, toda a violência. A violência no seio da família, na rua, nos locais de trabalho, nos cafés… nas faculdades, a violência é tudo o que alguém faz no sentido de fazer o outro sofrer.

Não há sofrimento, entre pessoas, que seja para o seu próprio bem.

A história da violência é intemporal, todas as sociedades se depararam com esta realidade e todas elas foram encontrando a justiça que melhor lhes conviesse.

Mudam-se os tempos, mudam-se as justiças, mas não se muda a necessidade do bem-estar e da dignidade.

Não há pensamento mágico que resolva a violência, no entanto, parece estarmos a acreditar nesse pensamento mágico, ou seja,  que alguém, que não nós, a possa resolver. Eu, escola, se denunciar a violência fico tranquila, cumpri a lei, o tribunal que decida.

Mas a verdade é que não consta que se deixe de roubar porque é proibido. As cadeias estão cheias de pessoas violentas.

Ninguém nasce bom ou mau, as circunstâncias das suas vivências vão valorizando os comportamentos que melhor se adequam à sua visibilidade, ao seu reconhecimento público e privado.

Como disse Nelson Mandela, uma sociedade que consente comportamentos violentos não é democrática. E não é, todos têm que ensinar a todos que a tolerância e o reconhecimento positivo de cada um são um bem público para além de privado.

A justiça é fruto de comportamentos desadequados.

Há que compreender esses comportamentos e dar-lhes a sanção respectiva.

E ao falar de violência, de submissão, de democracia vem-me inevitavelmente ao pensamento a questão das praxes académicas pela sua brutalidade em termos psicológicos e físicos.

Em democracia o agressor tem que ser castigado conforme os motivos e as consequências da sua agressão.

Faz-me confusão haver um estatuto para o aluno do ensino não superior em que os castigos podem levar até à expulsão, e não haver nada que regule o comportamento do aluno do ensino superior (haverá e eu desconheço, e até à data em que escrevo este texto ainda não vi ninguém referir).

É preciso explicar, vivenciar que nada justifica a violência, não importa a maneira como é exercida. É violência tudo o que faz o outro sofrer e ponto final.

A vida em sociedade não é fácil, há muitas conexões entre todos os indivíduos, acontecimentos, culturas, comportamentos aceites por uns e rejeitados por outros. Há que saber encontrar o equilíbrio.

Só exerce violência quem se sente superior, neste caso é o facto de já estar na Faculdade.

À medida que as crianças se vão tornando adolescentes é natural que queiram desafiar a autoridade dos professores, dos adultos em geral.

Mas onde está essa autoridade…quanto menos autoridade maior é o desafio… ( não confundir autoridade com autoritarismo).

Os senhores Directores das Faculdades estão agora a deparar-se com um problema de Bullying, mas de Bullying consentido. (continua)

 

1 Comment

  1. Em minha opinião, não só o bulling é um comportamento consentido, como é incentivado.
    Tendemos a reforçar positivamente os traços sociopáticos nos nossos pares e a considerar como bem sucedidos os indíviduos que não hesitam em prejudicar o próximo para satisfazer dos seus ímpetos e manias.
    Frequentemente, quando nos deparamos com um sociopata, tendemos a desculpá-lo pela sua origem e deformação comportamental fomentada em situações familiares abusivas, opressões sociais e outras desculpas mais ou menos esfarrapadas.
    É preciso que fiquemos alerta para identificar e travar tais comportamentos… Tais indivíduos…Tais instituições.

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