Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades. Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao expectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.
O trem do Cais de Sodré chega no Estoril e as luzes iluminam fora da estação parques e avenidas
A plataforma fica deserta na semi-penumbra entre a praia que deixa passar o murmurar das ondas e a estação mal iluminada A plataforma é só aclarada pelo tremeluzir dos brilhos luzentes dos trilhos que vão de Lisboa para Cascais e voltam de Cascais para Lisboa e pela luz distante dos parques e pelo brilho das estrelas que caminham do Tejo para o mar
Na plataforma tudo se vê e a saída para as avenidas está lá no fundo enquanto os pensamentos daquela noite do Estoril param na plataforma e não se movem preferindo percorrer a aventura futura que logo deverá chegar
Os números da roleta se entrelaçam procurando relações perfeitas O 17 aparece vitorioso e logo chama o acaso que deve correr na direção do 1 20 14 31 9 mas ?qual deles ?20 ?14 ?14 Depois salta o 14 igualmente vitorioso e quer dispor de imediato do próprio sucessor ?Volta aos companheiros da orfandade ou os abandona O 14 chama sempre quase sempre o 17 de novo Mas ?e o 2 e o 25 que estão ali juntos ao 17 Sim !!! 2
Agora tudo vai mudar porque o 2 não participa da vitoriosa série dos órfãos Agora com ele o campo é imenso em torno do zero absurdo zero 0 2 21 4 19 15 32 E depois do outro lado o ímã que parte do 29 Só o 28 é seu companheiro Então o acaso fixa o 29 mas com a certeza dos outros vizinhos 22 18 7 28 12 !Belo o 29
Agora é certo o jogo continua e o 29 chama sempre o 14 ou o 36 Mas ?qual em verdade
A plataforma deixa ver longe a saída que dá para os parques Melhor passar sobre os trilhos que reluzem
De repente sobre os trilhos o vulto imenso da locomotiva que corre de Lisboa para Cascais estridula e voa como o vento feroz que tudo carrega para os espaços infinitos
O trem passa num estrondo de surpresas medo pavor e gritos e passa
Ao lado dos trilhos agora ele vê o trem vindo do Rio de Janeiro que corre pela rua principal da cidadezinha e o outro carregado de cana e perfumes doces para o Engenho Central que chega em oposição O grito de minha mãe me confunde com o barulho da corrida dos dois trens que escodem o menino fugido na aventura louca
O grito e os trens passam e em meio às duas passagens o menino fixado olha tudo aquilo com os olhos abertos de espanto