CONTOS & CRÓNICAS – ““O trem ou Sonho n° 9” – por Sílvio Castro

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Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.      
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao expectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.

  

                   O trem do Cais de Sodré chega no Estoril e as luzes iluminam fora da estação parques e avenidas

                   A plataforma fica deserta na semi-penumbra entre a praia que deixa passar o murmurar das ondas e a estação mal iluminada  A plataforma é só aclarada pelo tremeluzir dos brilhos luzentes dos trilhos que vão de Lisboa para Cascais e voltam de Cascais para Lisboa e pela luz distante dos parques e pelo brilho das estrelas que caminham do Tejo para o mar

                   Na plataforma tudo se vê e a saída para as avenidas está lá no fundo  enquanto os pensamentos daquela noite do Estoril param na plataforma e não se movem  preferindo percorrer a aventura futura que logo deverá chegar

                   Os números da roleta se entrelaçam  procurando relações perfeitas  O 17 aparece vitorioso e logo chama o acaso que deve correr na direção do 1 20 14 31 9  mas ?qual deles  ?20  ?14  ?14  Depois salta o 14 igualmente vitorioso e quer dispor de  imediato do próprio sucessor ?Volta aos companheiros da orfandade ou os abandona  O 14 chama sempre  quase sempre  o 17 de novo  Mas  ?e o 2 e o 25 que estão ali juntos ao 17  Sim !!! 2

                   Agora tudo vai mudar porque o 2 não participa da vitoriosa série dos órfãos  Agora  com ele  o campo é imenso em torno do zero absurdo zero 0   2 21 4 19 15 32  E depois  do outro lado  o ímã que parte do 29  Só o 28 é seu companheiro  Então o acaso fixa o 29  mas com a certeza dos outros vizinhos 22 18 7 28 12  !Belo o 29

                   Agora é certo  o jogo continua e o 29 chama sempre o 14 ou o 36  Mas  ?qual em verdade

                   A plataforma deixa ver longe a saída que dá para os parques  Melhor passar sobre os trilhos que reluzem

                   De repente  sobre os trilhos  o vulto imenso da locomotiva que corre de Lisboa para Cascais estridula e voa como o vento feroz que tudo carrega para os espaços infinitos

                   O trem passa num estrondo de surpresas medo pavor e gritos e passa

                   Ao lado dos trilhos agora ele vê o trem vindo do Rio de Janeiro que corre pela rua principal da cidadezinha e o outro carregado de cana e perfumes doces para o Engenho Central que chega em oposição  O grito de minha mãe me confunde com o barulho da corrida dos dois trens que escodem o menino fugido na aventura louca

                   O grito e os trens passam  e  em meio às duas passagens  o menino fixado olha tudo aquilo com os olhos abertos de espanto

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